Emma Brown (Clare Boylan)

Uma noite, em novembro de 1854, a recém-casada Charlotte Brontë estava sentada com seu marido junto ao fogo quando ocorreu-lhe que, se ela fosse solteira, estaria escrevendo naquele momento. Ela correu para o andar de cima e buscou o romance inacabado, Emma, em que ela estava trabalhando antes de seu casamento, e o leu em voz alta. A resposta de seu gentil, mas iletrado marido não foi útil: ele ficou apenas preocupado que, desde que a história se passava em uma escola para meninas, os críticos iriam acusá-la de repetição. Brontë guardou o manuscrito. Nós nunca iremos saber se ela tinha ou não a intenção de ir em frente. Cinco meses depois ela estava morta.

Em Emma Brown, Clare Boylan se propôs a ambiciosa tarefa de terminar o romance do qual Brontë escreveu apenas dois capítulos. Ela não foi a primeira a tentar criar ficção a partir de manuscritos deixados incompletos pelas Brontës. O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily, tem inspirado uma série de sequências mal sucedidas, escritas, talvez, em resposta à especulação de que ela teria começado um segundo romance antes de morrer.  Os leitores sempre expressaram o desejo – até mesmo uma necessidade – de se identificarem com as irmãs Brontë, suscitado em grande parte, pelo tratamento altamente emotivo de suas vidas contido na biografia de Elizabeth Gaskell (A vida de Charlotte Brontë, 1857). É realmente possível entrar na mente de uma escritora morta há tanto tempo – especialmente quando essa escritora foi uma das mais brilhantes de uma geração em que o próprio romance atingiu seu apogeu – e produzir uma coletânea convincente digna de sua criadora?

O fragmento de Charlotte  Brontë em questão é de fato um pedaço fascinante, tentador, apesar de sua brevidade: através dos olhos da narradora viúva, a senhora Chanfolt, somos apresentados a uma misteriosa e silenciosa jovem, Matilda fitzgibbon. Supostamente uma herdeira. Ela foi colocada em um colégio interno por um cavalheiro que desaparece, não deixando os honorários da escola pagos. Quem é essa criança? Qual é o seu nome verdadeiro e qual é o segredo de sua origem?

São as questões com as quais o fragmento de Charlotte Brontë tão sedutoramente nos deixa e é mais do que compreensível que Boylan sentisse vontade de responder. Para fazer isso, ela nos fornece uma bem construída narrativa, cheia de suspense, que nos leva à verdade final sobre a história de Matilda. Um dos personagens, o Sr. Ellin, é descrito por Brontë como um detetive amador. Tomando sua sugestão de presente, Boylan criou uma história em que a Sra. Chalfont e o Sr Ellin unem forças para resolver o mistério. (Engenhosamente, Boylan também conseguiu incorporar elementos de um outro fragmento de romance de Charlotte Brontë, que conta a história da infância de Willie Ellin).

O problema é que, enquanto Brontë poderia ser uma mestre do suspense, o nosso desejo de descobrir quem ou o que está no sótão é apenas uma das vertentes que fazem Jane Eyre uma leitura tão magnética. A chave para o melhor trabalho de Brontë (Jane Eyre) é o que G. H. Lewes chama o “Seu estranho poder de representação subjetiva” – sua incrível capacidade de representar a mente humana. Os personagens de Boylan não são profundos, diferente dos de Charlotte.

Desde a década de 1880 as feministas atacam o marido de Brontë por impedi-la de escrever, mas não há, de fato, nenhuma razão para supor que, se vivesse, ela não teria terminado Emma. Na Biografia de Charlotte Brontë, de Mrs Gaskell, ela teve um modelo que combinou com sucesso, casamento e a maternidade de ser uma romancista. De uma coisa podemos ter certeza, no entanto, é que o que Charlotte produzisse seria muito diferente de Emma Brown – o que não quer dizer que Boylan não escreveu um romance bem trabalhado. Leia-o para o prazer de ver seus mistérios se desdobrarem, mas não espere que ele lhe dê um novo acesso à mente de Brontë.

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Por Lucasta Miller
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Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com