E não sobrou nenhum, de Agatha Christie

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Imagem: BBC

Agatha Christie é, sem dúvidas, um dos maiores ícones da literatura. Suas dezenas de romances policiais lhe renderam o título de Rainha do Crime e não é para menos. Autora de personagens marcantes como o detetive Hercule Poirot e Miss Jane Marple, Agatha Christie não só é dona de um estilo de escrita inigualável como se eternizou na história da literatura mundial ao ser a romancista que mais vendeu livros ao redor do globo, conquistando milhares de fãs.

Depois de um primeiro contato com a sua obra, eu tive certeza de que poderia ler qualquer coisa que Agatha houvesse escrito e foi após muitas recomendações (e insistência massiva – houve também algum chororô, devo dizer – de amigas loucas por Christie) que comecei a ler uma de suas obras mais bem sucedidas: “E não sobrou nenhum”, conhecida por seu antigo título “O caso dos dez negrinhos”. Apesar de Hercule Poirot nem outros de seus famosos detetives estarem presente, o livro não deixou de ser um sucesso.

A autora narra a estadia de dez pessoas totalmente diferentes e sem nenhuma ligação (exceto por um casal) aparente umas com as outras na ilha de um suposto milionário desconhecido por todos. Agatha Christie tem o cuidado de nos apresentar a cada um dos personagens, aos seus medos, anseios e expectativas para os dias que passarão na ilha. Dessa forma, ela aproveita para nos mostrar os motivos que levaram cada uma daquelas pessoas a aceitar o convite para o passeio.

Até aí tudo bem, os motivos para cada convite pareciam plausíveis e perfeitamente críveis, porém ao desembarcar na ilha, os convidados do milionário desconhecido se deparam com a notícia de que, devido a negócios, o dono de tudo aquilo não estaria com eles por uns dias. No mínimo estranho o anfitrião não estar ali para recebê-los. Então, para o cenário ficar ainda mais bizarro, quando os convidados se acomodam em seus respectivos quartos, eles se deparam com o seguinte poema:

Dez soldadinhos saem para jantar, a fome os move,
Um deles se engasgou, e então sobraram nove.
Nove soldadinhos acordado até tarde, mas nenhum está afoito;
Um deles dormiu demais, e então sobraram oito.
Oito soldadinhos vão a Devon passear e comprar chiclete;
Um não quis voltar, e então sobraram sete.
Sete soldadinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um dele cortou-se ao meio e então sobraram seis.
Seis soldadinhos com a colmeia, brincando com a finco;
A abelha pica um e então sobraram cinco.
Cinco soldadinhos vão ao tribunal ver julgar o fato;
Um ficou em apuros, e então sobraram quatro.
Quatro soldadinhos vão ao mar, um não teve vez,
Foi engolido pelo arenque defumado, e então sobraram três.
Três soldadinhos passeando no zoo vendo leões e bois,
O urso abraçou um e então sobraram dois.
Dois soldadinhos brincando ao sol, sem medo algum,
Um deles se queimou e então sobrou só um.
Um soldadinho fica sozinho, só resta um.
Ele se enforcou e não sobrou nenhum.

Perturbador? O pior ainda estaria por vir. Os dez “soldadinhos” se reúnem naquela primeira noite para jantar e são surpreendidos por uma gravação que lista o nome de todos e supostos crimes cometidos por cada um deles. A maioria nega, mas isso não impede que a desconfiança habite entre os dez, que, logo, se veem presos ao lugar.

Um a um, os convidados do rico Sr. Owen morrem de acordo com as descrições no poema e os que permanecem vivos começam a tomar medidas drásticas para evitar que o próximo verso se concretize. No entanto, eles continuam a morrer e não há nem sinal de outra pessoa na ilha que poderia ser responsável pelos assassinatos, o que leva os protagonistas à uma única conclusão óbvia: um deles era o assassino.

Eu pensava que Agatha Christie era sensacional, ao finalizar a leitura só pude concluir que ela não devia ser deste planeta. O jogo mental, o plano tão bem elaborado, a complexidade do enredo renderam a este livro fenomenal um lugar especial no meu coração e entre os meus poucos e muito especiais livros favoritos. Durante o tempo que li, eu não conseguia largar o livro por um minuto. Lia em todo lugar, saía com meus amigos e família, mas não abria mão de levar esta obra comigo. O final surpreendeu e foi simplesmente brilhante. Minha admiração por Agatha Christie cresceu ainda mais, uma leitura ótima para aqueles que não conhecem a autora e desejam se apaixonar por uma escrita fluida e por uma história que cativa do início ao fim.

A minissérie da BBC foi lançada no final do ano passado.

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Leila Maciel

    Comecei a ler Agatha lá pelos meus 13, 14 anos e nunca mais parei. Estou até relendo os livros dela juntamente com o blog Book Addict e estou adorando essa experiência 🙂