Discutindo as roupas íntimas do Mr Darcy

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Mr Darcy e sua camisa de babados

Uma das alegrias em assistir às adaptações dos romances de Jane Austen é o acervo abundante de homens extremamente atraentes que habitam essas dramatizações. (OK, talvez nem todas as histórias – como esquecer a exceção frustrante que foi o bobo Mr Bingley de Orgulho e Preconceito de 2005?)

Enquanto nos encantamos com os vestidos maravilhosos das personagens femininas, vamos confessar: adoramos ver aqueles galãs em suas roupas bem alinhadas. Agora, levante a mão quem de vocês já imaginou o que eles estão usando debaixo daqueles trajes com bom caimento? (se você é menor de idade e ainda sim levantou a mão, eu imagino que você cruzou os dedos da outra!).

O período da Regência Britânica foi uma época de mudanças na moda. As damas tinham acabado de se livrar de suas armações e anquinhas, que basicamente reconstruíam a forma do corpo de uma mulher, para adotar os renascidos vestidos do estilo grego clássico, que se ajustavam melhor à silhueta feminina. Os cavalheiros se vestiam para preservar a distinção de classes, e depois passaram a adotar estilos mais “democráticos”, para então readaptarem estilos que poderiam ser usados apenas pelas classes ociosas.

Dois fatores tiveram influência na evolução de roupas íntimas durante este período. O primeiro foi o crescente senso de comedimento, misturado a uma maior permissividade que geralmente é característica de períodos de guerra (as Guerras Napoleônicas se arrastaram do final dos anos 1700 até o começo dos 1800). O segundo fator, e possivelmente o que exerceu maior influência, foi um conceito surpreendente que ganhava terreno: a noção de higiene pessoal. Antes dessa época, as pessoas não tomavam banho direito e a frequência era irregular. Famílias, e às vezes vizinhanças inteiras compartilhavam a responsabilidade de esquentar água para banho e compartilhar a mesma banheira, de acordo com suas idades e classes sociais. As crianças ficavam no fim da fila nesses banhos, e quando finalmente tinha acesso à banheira, a água geralmente estava turva – eu sei: nojento, não é? – o que levava ao conselho de se tomar cuidado para não jogar o bebê fora com a água do banho, quando se esvaziava a banheira.

Mr Darcy se preparando para ficar elegante

Conforme a Regência Britânica progredia, aqueles que podiam pagar tomavam banhos regulares em suas próprias banheiras. Eles mudavam e lavavam suas roupas com maior frequência, não mais contando com perfumes para disfarçar os odores do corpo. Ninguém menos que o próprio George “Beau” Brummell – confidente do Príncipe Regente e considerado o exemplo da moda masculina da época – declarou que para que um cavalheiro esteja adequadamente bem vestido diante da sociedade, ele deve estar, antes de mais nada, meticulosamente limpo.

Isso fez com que os cavalheiros trocassem suas roupas com mais frequência, já que os colarinhos, punhos e peitilhos costumavam sujar com mais facilidade. As roupas íntimas eram trocadas constantemente para manter essa limpeza.

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O peitilho e punhos expostos do Mr Darcy

As roupas íntimas masculinas, em sua maioria, pareciam com bolsões: cuecas que geralmente iam até o joelho, debaixo de calções ou ceroulas. Elas eram amarradas com laços na cintura ou no joelho, e feitas de vários tecidos, dependendo da época do ano: cuecas de algodão ou de linho eram para se usar no verão, enquanto que as de flanela ou de lã eram mais adequadas para o inverno. Debaixo das calças, os cavalheiros costumavam usar ceroulas de algodão (elásticas e de malha), cuja extensão ia desde o tronco até as pernas, geralmente presas ao redor dos pés.

Se os calções de um cavalheiro eram de bom caimento, eles provavelmente tinham bolsos pregados em sua parte interior, como uma espécie de forro. Esses bolsos eram removíveis para lavar. Ou o cavalheiro poderia simplesmente enfiar sua camisa dentro de seus calções ou ceroulas para eliminar o volume de uma camada extra.

Naquela época, as camisas masculinas eram consideradas roupas íntimas. O colarinho era grande (cerca de seis polegadas), e se não estivesse dobrado para baixo, perto do nó da gravata, cobriria uma parte do rosto do cavalheiro. O decote frontal era fechado por um ou dois botões, e poderia ter algum enfeite que ficava preso junto ao colete. Os colarinhos e punhos das camisas poderiam ser enfeitados com franzidos, e os cavalheiros ociosos deixavam uma ou duas polegadas da manga da camisa para fora da manga da jaqueta – um luxo não permitido aos homens trabalhadores, cujos punhos eram colocados para dentro de jaquetas de mangas longas a fim de mantê-los limpos. Os tecidos usados para fazer as camisas eram, geralmente, linho e algodão. Quando vimos o Mr Darcy da adaptação de 1995 de Orgulho e Preconceito entrar na lagoa sem sua jaqueta ou colete, o vimos, na verdade, apenas com suas roupas íntimas – o equivalente hoje à camiseta ou à camisa de baixo. O mesmo acontece quando o Mr Darcy da adaptação de 2005 vagueia pelos campos de Netherfield procurando por Elizabeth. Ele também estava usando sua camisa de baixo – ainda que ele não tivesse um maço de cigarros guardados no bolso!

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O espartilho masculino da época da Regência Britânica – crédito: domínio público.

Homens que seguiam a moda, incluindo o próprio Príncipe Regente, usavam espartilhos para dar a impressão de serem pessoas de cintura fina. Os espartilhos eram amarrados nas costas e precisavam de um camareiro para fechá-los.

Os cavalheiros da época normalmente trocavam suas roupas e gravatas ao menos duas vezes por dia para garantir uma aparência limpa, ainda que as ceroulas não fossem trocadas com a mesma frequência. Um cavalheiro mediano tinha em seu guarda-roupa de cinquenta a sessenta camisas, cerca de metade dessa quantidade de gravatas, e talvez dez ou doze ceroulas. Os camisões para dormir eram parecidos com as camisas usadas durante o dia, embora fossem mais compridos.

Esses são alguns exemplos dos cavalheiros de Jane Austen com suas roupas íntimas à mostra, juntamente com o vídeo que me encantou. Eu espero que a encante também! Eu não tenho os direitos autorais de nenhuma das mídias – os filmes são propriedades da BBC, e o vídeo pertence à banda ZZ Top.

 

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Traduzido de https://everysavagecandance.wordpress.com
Escrito por JanisB
Fotos: BBC

 

 

Mariana Almeida

"Apaixonada por idiomas e todo o universo textual, trabalha com revisão e tradução (inglês-português) nas áreas de meio ambiente, administração, marketing, linguagem, literatura, sociologia e autoajuda. Formada em Letras e em Administração, especialista em Comunicação Empresarial, especialista em Tradução, mestre em Ciências Humanas e Sociais, atua também como professora universitária, orientadora de trabalhos de conclusão de curso na área de comunicação, participação em bancas examinadoras de trabalhos, em eventos na área científica (congressos, seminários, simpósios) como ouvinte e como expositora, com artigos publicados em periódicos científicos."

  • Luciana Campelo

    Eu acho o Bingley do filme de 2005 até mais atraente do que o Bingley da série 1995. 🙂