Dez questões sobre Jane Austen

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O enredo de qual romance de Jane Austen se baseia o tempo? Onde Wickham se encontrou com Georgiana Darcy? E qual personagem diz “Eu odeio dinheiro”? A precisão é o gênio de Jane Austen e fazer perguntas específicas sobre seu trabalho revela sua inteligência.

Admiradora de Jane Austen, Virginia Woof disse que “de todos os grandes escritores, ela é a mais difícil de compreender em sua grandeza”. É uma ideia brilhante. A aparente modéstia dos dramas de Austen é apenas aparente. A minúcia do esboço é um feito heroico de bravura. Mas não pode ser mostrado por uma grande cena ou fala. Precisão é a sua genialidade. Perceber as minúcias levará você à maravilhosa interconexão de seus romances, onde um pequeno detalhe de palavras ou motivação em um lugar acenderá lembranças de algo que aconteceu muito mais cedo. Esta é uma das razões pelas quais tantas releituras são suportadas. Em cada particularidade pode-se notar que se é direcionado para um novo projeto. Se perguntas muito específicas são feitas sobre o que se passa em seus romances, a esperteza dela é revelada. Quanto mais de perto se olhar, mais se vê. Tente estas dez questões.

Quem se casa com um homem mais jovem do que si?

A idade importa muito para os personagens dos romances de Jane Austen: pense em Elizabeth Elliott em Persuasão, solteira aos 29 anos e se aproximando “dos anos de perigo”. A idade de uma moça (e também de um homem) determina a sua (ou suas) perspectivas de casamento. Em Orgulho e Preconceito, Charlotte Lucas tem 27 anos quando laça Mr. Collins, sua idade estimula a não perdê-lo quando ele considera a ideia.

“Uma mulher de vinte e sete… nunca pode esperar sentir ou inspirar afeição de novo”, declara Marianne Dashwood em Razão e Sensibilidade. Ela tem, no entanto, absurdos 17 anos de idade: julgamentos sobre o que é inevitável em qualquer idade são falhas invariavelmente ridículas de imaginação. Lady Russell em Persuasão pensa que Charles Musgrove não teria sido bom o suficiente para Anne Elliot quando ela tinha 19 anos, mas uma vez que ela tem 22 anos e ainda está solteira, ele torna-se realmente desejável, de tão depressa que se desaparece a beleza de uma moça. No entanto, Lady Russell está normalmente errada sobre as coisas e, na idade madura dos 27 (esse número novamente), Anne fica com o homem que ela ama.

Charlotte Lucas sente toda a pressão da idade. Ao agarrar seu marido, ela se torna a única mulher em todas as ficções de Austen a casar-se com um homem mais jovem do que ela, porque Mr. Collins nos é apresentado como um “jovem alto, pesado para a aparência de vinte e cinco”. Muitos admiradores de Orgulho e Preconceito pensam em Mr. Collins como sendo um homem de meia-idade. No filme de Hollywood de 1940, o papel foi feito pelo ator britânico Melville Cooper, então com 44 anos. A tendência foi definida. Em 1995, na adaptação da BBC de Andrew Davies Collins foi interpretado por David Bamber, então, na metade dos seus 40 anos. No filme de 2005, o papel foi feito por um ator um pouco mais jovem, Tom Hollander, então com 38 anos. Adaptadores perdem o ponto por manterem a idade errada. Sua solenidade e moralidade são muito melhores, muito mais engraçado, vindo de alguém tão “jovem”. De meia-idade é o que ele gostaria de parecer, e não o que ele é. Sua juventude enfatiza a realização de Charlotte, com pouco dinheiro e nenhuma beleza para ajudá-la.

Quem disse: “Eu odeio dinheiro? ”

Tem que ser uma pessoa má, pois qualquer um que declara não se preocupar com dinheiro deve estar mentindo. É Isabella Thorpe em Northanger Abbey, uma jovem hipócrita, mas talentosa, que anuncia sua antipatia por lucro. Alguns capítulos depois, ela diz a Catherine Morlland, preparando-se para romper com James Morrland em favor de Frederick Tilney, “depois de tudo o que romancistas possam dizer, não há o que fazer sem dinheiro”. Em Razão e Sensibilidade, outra jovem mercenária, Lucy Steele, falando sobre Edward Ferrars, diz a Elinor Dashwood: “Eu sempre usufrui de uma renda muito pequena, e posso lutar contra qualquer pobreza por ele”. É mais pura hipocrisia. Lucy é impiedosa com dinheiro, um fato muito bem ilustrado por ela ao roubar toda a ínfima quantia de dinheiro de sua irmã antes de fugir com Robert Ferrars. Não devemos esquecer que a idealista Marianne Dashwood compartilha desse suposto desprezo por riqueza com estas duas meninas calculistas. Quando Elinor e Marianne debatem sobre a importância do dinheiro na companhia de Edward, Marianne reage com indignação à declaração de Elinor que a felicidade tem muito a ver com a “riqueza”: “’Elinor, que vergonha!’ disse Marianne, ‘dinheiro só pode dar felicidade onde não há nada mais para dar. Além de autossuficiência, ele não pode pagar por nenhuma satisfação real, enquanto sua simples vontade estiver satisfeita.’”

Quando Marianne está murmurando sobre a “extraordinariamente bonita” sala de estar no andar superior em Allenham (perfeita, ela está pensando, para uma esposa sortuda), ela lamenta sua mobília “abandonada”. Tudo o que precisa é de ser “recém-mobiliada – um par de cem libras, Willoughby diz, iria torná-la uma das salas de verão mais agradáveis na Inglaterra”. A extravagância ocasional deste – ainda pior, pois é a imaginação da riqueza que virá apenas quando a tia de Willoughby morrer – deveria nos parar logo. Os dois amantes estiveram pensando em gastar duas vezes o rendimento anual em conjunto de Miss e Mrs. Bates em Emma com mobílias leves para um quarto. Os primeiros leitores mais atentos de Austen certamente teriam chegado perto de desprezar Marianne quando a ouviram dizer isso. É mais uma prova de que aqueles que se declaram superiores à preocupação com dinheiro são aqueles que são mais governados por ele.

Qual é o nome de batismo de Mrs. Bennet?

Nós nunca sabemos. Também não sabemos os primeiros nomes de outras senhoras de Austen: Mrs. Dashwood, Mrs. Allen, Mrs. Norris, Mrs. Grant, Mrs. Dixon, Mrs. Smith. Alguns maridos chamam suas esposas por seus primeiros nomes. Em Razão e Sensibilidade, John Dashwood chama sua medonha esposa “Minha querida Fanny”, embora ela se dirija a ele como “Meu caro Mr. Dashwood”. Em Emma, Mr. Elton ostenta o uso do nome de batismo da sua esposa. “Vamos caminhar, Augusta?” Ele diz para ela na frente do grupo em Box Hill. É quase ostensivo. “Criatura feliz! Ele a chamou de “Augusta”. Que encantador!” Diz a estúpida Harriet Smith, após a primeira reunião com a monstruosa nova esposa do vigário. Sua exclamação indica que os Eltons estão se comportando de uma forma incomum, talvez de acordo com a moda. O florescente “Augusta” de Mr. Elton é feito de modo mais repulsivo pela revelação de falsa modéstia de Mrs. Elton de que ele escreveu um acróstico em seu nome, enquanto a cortejava em Bath.

No entanto, não é simplesmente “errado” usar o primeiro nome de sua esposa. Em Persuasão, o almirante Croft se dirige à sua esposa como “Sophy”. Este é um com um bom coração jovial e um sinal de proximidade do casal. Tamanha é a sua dedicação à esposa que, quando ele se esforça para lembrar o nome fútil de Louisa Musgrove, ele francamente deseja que todas as mulheres fossem chamadas de Sophy. Enquanto isso, sua esposa dirige-se a ele como “meu caro almirante”. Ele é um desses homens (Mr. Palmer, Mr. Bennet, Mr. Weston, Dr. Grant), cujo primeiro nome permanece não declarado.

O simples uso de nome de batismo de uma pessoa é excitante. Em Razão e Sensibilidade, Elinor ouve Willoughby discutir o presente de um cavalo com sua irmã e dizendo: “Marianne, o cavalo ainda é seu. “Só pode significar uma coisa. “A partir desse momento ela não duvidava de estarem comprometidos um com o outro.” Uma mulher que permite que um homem fale o nome dela lhe dá um poder especial. Mas é ainda mais raro para uma mulher chamar um homem pelo seu primeiro nome. Mr. Knightley pede para Emma chamá-lo de George, mas ela não o fará: “Impossível! – Eu nunca poderia chamar-lhe de qualquer outra coisa, além de ‘Mr. Knightley'”.

Por que Mr. Perry está arrumando uma carruagem?

A trama de Emma gira em torno do “erro” de Frank Churchill em mencionar a probabilidade de Perry, o farmacêutico local, “estar arrumando uma carruagem”. Frank sabe que por causa de sua correspondência secreta com Jane Fairfax e está, portanto, com dificuldade quando questionado pela Mrs Weston sobre como ele descobriu. Estão dizendo. Mr. Perry está, evidentemente, ganhando tanto dinheiro com os hipocondríacos de Highbury que pôde ceder ao desejo de sua mulher por uma carruagem. Os próprios Austens possuíram uma carruagem por um ou dois anos no final de 1790, mas, em seguida, tiveram que abrir mão dela. Estaria custando uma renda de £ 1.000, aproximadamente, por ano para fazer com que a carruagem fosse acessível, bem além da maioria das famílias respeitáveis.

Mr. Perry pôde usar sua carruagem para fazer seus lucrativos atendimentos domiciliares. O “inteligente e cavalheiresco” médico é uma espécie de terapeuta, cujo negócio é fazer a vontade dos seus estúpidos pacientes. Ele é visto pela primeira vez numa falta de tato ao contradizer a opinião absurda de Mr. Woodhouse de que bolo de casamento faz mal. Ele concorda que “muitos certamente podem discordar… talvez a maioria das pessoas, a não ser que consideradas moderadamente.” apesar de “todos os pequenos Perrys” logo serem vistosm vistos “com uma fatia de bolo de casamento de Mrs. Weston em suas mãos”. O pai deles é um homem que ganha a vida consideravelmente ecoando ideias nas cabeças de seus clientes..

Frank Churchill depois tenta brincar com os lucros do Mr. Perry, sugerindo que, se o baile vier a ser realizado no Crown em vez de Randalls haveria menos perigo de alguém pegar um resfriado. “Mr. Perry poderia ter razões para lamentar a alteração, mas ninguém mais pode”. O arque-hipocondríaco Mr. Woodhouse responde “um tanto calorosamente”, profundamente ofendido com a sugestão de que o seu farmacêutico aprecia males menores. “Mr. Perry fica extremamente preocupado quando qualquer um de nós está doente”. No entanto, ele está arrumando uma carruagem porque tem “comido” devido aos hipocondríacos da Inglaterra Regencial.

Quem está de luto, vestindo preto?

Muitas pessoas. Próximo ao final de Emma, a morte da Mrs. Churchill torna possível para Frank Churchill se casar com Jane Fairfax. Quando Frank encontra Emma após o anúncio de seu noivado, ele está sorrindo por causa deste “dia mais que feliz”, mas estava vestido, devemos perceber, todo de preto. Não nos é dito isto: os primeiros leitores de Austen teriam “visto” esse traje e registrado o choque entre a tristeza oficial e a felicidade particular. As mortes de parentes próximos obrigavam um período de luto completo (ou “profundo”) – em que as roupas eram predominantemente pretas – seguido por um período igual de luto “parcial” ou “suave”. As próprias cartas de Austen a sua irmã estão cheias de bate-papo sobre a adaptação de roupas para marcar a morte deste ou daquele parente. Ao saber da morte da Mrs. Churchill, o Mr. Weston balança a cabeça solenemente, enquanto pensava – Austen não pôde resistir nos contar – “que seu luto deve ser tão bonito quanto possível”. Sua esposa, por sua vez, fica “suspirando e moralizando sobre suas amplas bainhas”. A sátira de Austen é totalmente tolerante.

No final de Mansfield Park, Mary Crawford e Mrs. Grant começaram uma nova vida juntas, vestidas de preto em luto total por causa da morte do Dr. Grant. Mas o luto delas não é de tristeza. Nós presumimos que, mesmo em suas roupas pretas, elas estão encantadas por se livrarem de um cansativo obstáculo à sua amizade fraternal. Austen gosta que notemos que as pessoas, oficialmente de luto, deixam de lamentar. Em Persuasão, Capitão Benwick está “de luto” pela perda de Fanny Harville, o que significa não apenas que ele está triste, mas que ele está realmente vestido de preto, como os Harvilles provavelmente estavam. Anne conhece a história de sua tragédia compartilhada, mas, em seguida, suas roupas já teriam deixado-a curiosa. Se nós não reparamos nessas roupas perdemos algo, pois o Capitão Benwick devia ou evitar suas vestimentas de luto, enquanto dá atenção à Louisa Musgrove, ou cortejá-la enquanto as usa. Qualquer possibilidade dá força especial para Capitão Harville, mais tarde, exclamar para Anne: “Pobre Fanny! Ela não o teria esquecido tão cedo!”. A vestimenta de luto é, afinal, vestida com o propósito de te impedir de escapar das lembranças da pessoa morta.

Onde é que Wickham se encontrou com Georgiana Darcy?

À beira-mar… onde mais? A quase sedução da irmã de Mr. Darcy é encenada com a ajuda da pérfida ex-governanta, Mrs. Younge, em Ramsgate, na costa de Kent, onde, podemos inferir que Georgiana Darcy está à mercê de Wickham. Somente a chegada, no último minuto, de seu irmão a salva. Isso é perigoso à beira-mar. Austen tinha alguma coisa particular contra Ramsgate, para onde seu irmão marinheiro Francis havia sido designado entre 1803/1804. Em uma carta a Cassandra em 1813, ela refere-se a um amigo que decidiu se mudar para Ramsgate e exclama: “Péssimo gosto!”. Em Mansfield Park, Tom Bertram gabava-se plenamente, descrevendo seu comportamento de paquera em Ramsgate com a senhorita Sneyd mais nova, quem quer que seja ela… Na chegada a cidade, ele e Sneyd encontram “Mrs e as duas Misses Sneyd… no píer… com outras pessoas de seu conhecimento.” “Mrs Sneyd foi cercada por homens”, lembra ele. O sexo está no ar em Ramsgate.

O fútil Tom Bertram é um frequentador dos resorts à beira-mar. Ao voltar de Antígua, ele  não retorna, obedientemente, para a casa de sua mãe e irmãos, mas vai para Weymouth. Mais tarde no romance, Julia Bertram acompanha Mr. e Mrs Rushworth para Brighton, onde ela se encontra com o Mr. Yates, com quem ela foge. Brighton é verdadeiramente perigoso. Lydia Bennet encontra Wickham lá e foge com ele. Nos romances de Austen, balneários são lugares para flertes e compromissos, ligações e fugas, amor e sexo. E luas de mel. Em Razão e Sensibilidade, Lucy Steele se casa com Robert Ferrars e eles saem em lua de mel para Dawlish em Devon. Emma (que nunca viu o mar) e Mr. Knightley, uma vez noivos, planejam uma “ausência de duas semanas em uma excursão à beira-mar” após seu casamento. Você pode dizer que uma vez que Emma realmente descobre o amor ela está indo, afinal, rumo ao litoral. Será, à beira-mar, que ela e o Mr. Knightley começam um relacionamento sexual.

Quem casa por sexo?

As histórias de Austen contam com um reconhecimento do apetite sexual dos homens, que explica por que essa “verdade universalmente reconhecida” – o desejo do solteiro rico por uma mulher – é, de fato, verdade. Há vários homens na ficção de Austen que “querem” uma esposa por razões além de cálculo financeiro. Mr. Collins quer uma; Charles Musgrove queria uma. O primeiro esperava agradar Lady Catherine de Bourgh, mas certamente tinha outras razões. Este último, tendo sido recusado por Anne Elliot, racionalmente optou pela sua irmã mais nova. Podemos supor que o desejo de liberação sexual motivava homens “jovens”, e que os primeiros leitores do século XIX teriam entendido isso. Em Emma, Mr. Elton, o vigário de Highbury, é “um jovem que vive sozinho sem gostar disso”. Essa última frase tem um peso de significado. Apenas um leitor voluntariamente inocente poderia pensar que ele anseia por uma mulher apenas para escolher seus tecidos e discutir com seu cozinheiro.

As narrativas de Austen dependem da nossa imaginação das necessidades sexuais masculinas. Nos pegando imaginando como o Mr Palmer em Razão e Sensibilidade, um homem inteligente, mas mal-humorado, poderia ter se casado com uma mulher tão idiota quanto Charlotte Jennings, Austen permite que Elinor reflita sobre o quebra-cabeça. “O temperamento dele talvez pudesse ter ficado um pouco azedo ao descobrir, como muitos outros de seu sexo, que através de algum erro inexplicável em favor da beleza, que ele era o marido de uma mulher muito tola… mas ela sabia que esse tipo de engano era muito comum para um homem sensato ser ferido permanentemente por ele”. É um julgamento extraordinário, pois Mr. Palmer está casado com uma tola pelo resto de seus dias. Elinor viu isso acontecer muitas vezes. Seu erro foi sua cobiça pela “beleza”… ou, poderíamos dizer, “sex appeal”. Nessa altura do romance, Charlotte Palmer está bem grávida (embora ele dificilmente seja capaz de falar com sua esposa, ele faz sexo com ela). Talvez seu estado avançado de gravidez signifique uma negação temporária de consolo conjugal. Mais uma razão para o seu mau humor.

Por que Robert Ferrars se casa com Lucy Steele em Razão e sensibilidade? Todas as evidências apontam para um processo de intoxicação sexual que Lucy, que tem uma “beleza considerável”, gerencia com grande habilidade. Ele se casa com ela “rapidamente”, porque ele a quer. Ela negocia no fascínio sexual (não um mero blefe… somos explicitamente avisados sobre a “grande felicidade” da lua de mel deles). A escolha do Mr. Bennet pela Mrs. Bennet também foi determinada sensualmente. No primeiro capítulo de Orgulho e Preconceito, sua piada sobre sua esposa não acompanhar suas filhas para conhecer o Mr. Bingley com medo de que ele “ache você o melhor da festa” tem uma pitada deplorável. Quando jovem, ele estava “cativado pela beleza e juventude”. Tendo cometido seu erro, ele deve viver com ela. E depois de tudo, podemos deduzir que Mr. e Mrs Bennet tenham exercido uma vida sexual ativa na meia-idade já que, “após muitos anos após o nascimento de Lídia”, a senhora Bennet tem certeza de que eles acabarão por ter um filho.

O que o Capitão Benwick diz em Persuasão?

Nada que valha a pena nos contar. Há um grupo especial de personagens de Austen, que podem falar e falar, mas nunca tem uma palavra do seu discurso citado. Capitão Benwick é um membro desse grupo. Em sua primeira noite em Lyme, Anne o tem como companhia e descobre que, embora inicialmente “tímido”, ele tem muito a dizer, notoriamente sobre o seu “gosto pela leitura”. Logo ele está falando sobre poesia e repetindo os peças de Scott e Byron que ele sabe de cor. Ele encontrou os versos que pareciam dignificar seus próprios sentimentos de um amor desolado. Interessada em evitar conversar com o Capitão Wentworth, Anne passa a maior parte da noite com o Capitão Benwick. Ele é cheio de citações de si mesmo, mas não diz absolutamente nada que a autora pensa que vale a pena citar.

No dia seguinte, o Capitão Benwick procura Anne e ele logo está falando novamente, discutindo sobre livros. Capitão Harville fica grato a ela por “fazer esse pobre sujeito falar tanto”. O assentimento é delicado, uma vez que Anne está se tornando vítima deste homem previamente silencioso que tão facilmente descobriu o consolo de falar. Enquanto a pequena reunião de pessoas caminhava ao longo de Cobb pela última vez antes de partirem, “Anne encontrou Capitão Benwick novamente desenhando perto dela”. Ele vai falar e recitar um pouco mais, mas Austen não sobrecarrega o leitor com o que ele diz. A resposta de sua heroína é caridade: “Ela de bom grado deu-lhe toda a sua atenção enquanto a atenção era possível.” Não o tanto de atenção o suficiente para qualquer de suas palavras nos ser apresentada.

Parece uma brincadeira particular de Austen sobre um homem que recita em vez de conversar. Quando Charles Musgrove retorna de Lyme, ele fala com Anne sobre o Capitão Benwick dizendo: “‘Oh! Ele fala de você”, gritou Charles, “em tais termos… A cabeça dele está cheia de uns livros que ele está lendo por recomendação sua, e ele quer falar com você sobre eles… ouvi-lo dizendo para Henrietta sobre tudo isso”. Ele continua sendo tratado como um tagarela, mas suas palavras nos são privadas. Então, de alguma forma estranha, ele nunca existe totalmente.

Quem teve o namoro bem-sucedido mais curto?

Entre heroínas de Austen, é Catherine Morland. Northanger Abbey é o mais curto dos romances de Austen e a sua história de amor é também a mais rápida. O romance está cheio de pressa – do progresso da amizade de Catherine e Isabella, até a ostentação de John Thorpe sobre a velocidade de sua viagem, à constante impaciência e pressa do coronel Tilney. (Northanger Abbey tem horas do dia mais precisas do que qualquer outro romance de Austen). O tempo entre a chegada de Catherine em Bath e sua saída de Northanger Abbey é de apenas 11 semanas: uma relação breve sobre a qual basear uma vida conjunta de casados. Ainda mais breve, já que durante essas 11 semanas Henry Tilney passou um tempo afastado em sua paróquia, deixando Catherine em Northanger Abbey com sua irmã. Tendo provocado um pedido tão rápido de Henry Tilney, Austen tranquiliza-nos, dizendo que ele e Catherine de fato se casam “dentro de 12 meses” a partir do primeiro encontro deles… não muito menos do que o ano corrido entre o primeiro encontro e as núpcias de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy.

Outros personagens foram mais rápidos do que Catherine e Henry. Mr. Elton, ferido após ter sido rejeitado por Emma, vai para Bath e escreve ao Mr. Cole apenas quatro semanas depois para anunciar seu noivado com uma mulher que ele nunca tinha visto antes. O notório conselho de Charlotte Lucas em Orgulho e Preconceito é ser tão rápida quanto possível. A fim de estabelecer as intenções do Mr. Bingley, ela diz a Elizabeth, Jane Bennet “deve… aproveitar o máximo de cada meia hora em que ela pode dominar sua atenção. Quando ela estiver segura dele, haverá mais tempo livre para que ela se apaixone o tanto que quiser”. Um namoro longo não tem vantagens: “É melhor saber o mínimo possível dos defeitos da pessoa com quem você passará sua vida”. O namoro mais curto que se possa imaginar é realmente o do Mr. Collins com Charlotte, com duração da hora do jantar até a meia-noite de um único dia, tudo isso passado na companhia volúvel dos outros.

Qual romance baseia-se no tempo?

Todos eles. Austen é genial com o tempo, tornando-o o princípio da oportunidade de adentrar em suas narrativas. Razão e Sensibilidade ganha vida por um erro de julgamento do tempo: Marianne vai caminhar sobre as colinas de Devon com sua irmã mais nova, Margaret, convencendo-se de que “a luz parcial do sol em um céu chuvoso” é um bom presságio. A “declaração de que o dia seria permanentemente razoável” de Marianne é uma total insensatez, revelada quando “uma chuva com ventos se choca por completo em sua face”. Correndo para casa, Marianne tropeça e é resgatada pelo estonteante Willoughby. Pode parecer um acidente do destino, o início de um romance, mas a determinação de Marianne em iludir-se sobre o tempo é um mau presságio.

O tempo, de várias formas, junta os amantes ou os separa em cada romance, porém nenhum mais decisivamente do que em Emma. Nossa heroína está contemplando a possibilidade de unir Sr. Knightley e Harriet Smith. O mundo está se fechando. “Uma tempestuosa chuva fria está se formando” – fora de época para julho. “O tempo afetou o Mr. Woodhouse”, exigindo que Emma fique incessantemente atenta a ele a fim de mantê-lo “razoavelmente confortável”. A noite de chuva estende-se como a longa perspectiva de seus dias futuros somente com seu pai por companhia. Mas, então, “o vento mudou para uma chuva bem suave; as nuvens foram levadas, o sol apareceu, era verão novamente.” Sr. Knightley chega e, enquanto Mr. Perry consola Mr. Woodhouse por sua indisposição induzida pelo clima, ele caminha com Emma no jardim.

No momento crítico de sua conversa, ele apresenta uma revelação e Emma se recusa a ouvi-la… ela teme que ele fale de Harriet de forma afetuosa. Eles chegam a casa, mas ela decide “tomar outro rumo”. Um clima benigno abençoa a sua mudança, e ele pode dizer que não deseja se casar com Harriet e que ele a ama. É o passeio no repentino tempo bom que possibilita o pedido de Mr. Knightley, nada premeditado, antes de descobrir a oportunidade. O leitor mais perspicaz considerará o noivado final de Emma e Mr. Knightley como inevitável a partir do momento em que sabemos que ele é a única pessoa que nunca encontrou uma falha nela. Mas os melhores entretenimentos convalescem-se do acaso e a sortuda mudança de tempo em Emma está lá para nos deixar a imaginar como poderia ter acontecido senão daquela forma.

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The Guardian

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.