Dançando com Mrs. Dalloway

Katharine “Kitty” Maxse.

Katharine Maxse © Mary Evans Picture Library

Com seus olhos azuis, os cabelos louros e toda a pose, Katharine “Kitty” Maxse era uma socialite de almanaque. Seguia as regras de etiqueta que a elite não dispensava. Nas festas, Kitty passava de uma pessoa a outra, conversando com engenho e entusiasmo. Sua mãe era muito amiga de Julia Stephen, bela e melancólica mulher de classe média. Julia respeitava as expectativas da sociedade, exatamente como Kitty. E desempenhou um papel importante em sua vida, como casamenteira para o seu enlace com Leopold Maxse. Kitty era muito devotada à amiga mais velha. Quando Julia morreu, de febre reumática, Kitty sentiu-se na obrigação de ajudar suas filhas adolescentes, Virginia e Vanessa. Tratou então de fazer o que melhor sabia fazer, preparando as moças para serem aceitas na alta sociedade.

Kitty preferia a companhia de Vanessa, extrovertida e gregária, ao contrário da irmã,tímida e desajeitada. Virginia talvez tenha reagido mal, mas de qualquer maneira nunca gostou realmente da mentora. Kitty era um pouco “na onda” demais para o seu gosto. Muito tempo depois, quando estava com 55 anos, Kitty levou um tombo em casa e faleceu em seguida. No leito de morte, queixou-se: “Jamais me perdoarei por semelhante descuido.” Mas Virginia, então com 40 anos, não se convenceu, suspeitando que fora suicídio. Talvez Kitty não fosse assim tão perfeita, como queria parecer. A enigmática socialite já conseguira introduzir-se nas páginas de Virginia como Clarissa Dalloway em seu primeiro romance, A viagem. Kitty era o modelo perfeito para a Sra. Dalloway, mulher de refinada educação cuja vida gira em torno de expectativas sociais. Mas Virginia ainda se sentia compelida a explorar mais o personagem em outra obra de ficção.

Virginia trouxe a Sra. Dalloway de volta num conto intitulado “Mrs. Dalloway em Bond Street”. Pretendia integrar a narrativa a uma coletânea de histórias interligadas, cujo título provisório era Em casa ou A festa. Contudo, logo depois de tomar conhecimento do suposto acidente de Kitty, a autora decidiu transformar o conto num romance. Curiosamente, a morte de Kitty aparentemente também salvou a vida da Sra. Dalloway. Virginia comentou: “A Sra. Dalloway deveria inicialmente matar-se, ou talvez simplesmente morrer no fim da festa.” Todavia, uma semana depois de receber a notícia sobre Kitty, Virginia decidiu deslocar o foco de seu relato do terrível destino de uma mulher. A morte continuaria pairando no fim do livro, mas a Sra. Dalloway permaneceria viva.

Katharine Maxse

Katharine Maxse © Mary Evans Picture Library

Virginia tinha em mente agora o que descreveu em seu diário como “um estudo sobre a insanidade e o suicídio: o mundo visto pelos sãos e os insanos lado a lado”. É provável que a morte de Kitty tenha servido de catalisador dessa mudança, já que seu estranho falecimento é mencionado na mesma entrada do diário. Mas ainda assim permanecem um mistério os motivos pelos quais Virginia não quis que a Sra. Dalloway tivesse o mesmo fim que sua inspiradora na vida real.Ela inventou o personagem de Septimus Smith para funcionar como o duplo insano da Sra. Dalloway. Septimus, veterano desequilibrado da Primeira Guerra Mundial, aparecera anteriormente numa história inédita, “O primeiro-ministro”. Servia de contraste para a requintada anfitriã. À primeira vista, os dois personagens são completamente diferentes, mas surpreendentes ligações vão surgindo ao longo de Mrs.Dalloway.

Virginia foi buscar inspiração em sua vida para vários personagens de Mrs. Dalloway. Quando tinha cerca de 15 anos, ela se apaixonou por Madge Symonds Vaughan, outra escritora cheia de vigor e entusiasmo. Vita Sackville-West, uma das amantes de Virginia, escreveu em seu diário: “V[irginia] contou-me a história dos seus primeiros amores – Madge Symonds, que é Sally Seton em Mrs. Dalloway.” No romance, a Sra. Dalloway recorda-se de um beijo apaixonado em Sally Seton, e seus sentimentos fazem eco ao afeto de Virginia por Madge. A escritora ficou triste ao ver o entusiasmo de Madge fenecer depois de anos num casamento tradicional, e traçou um retrato semelhante de Sally, que também perde o viço com o tempo.

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Conversando com Mrs. Dalloway, de Celia Blue Johnson
Título original Dancing with Mrs. Dalloway
Copyright © 2013 Casa da Palavra

Fotos: Look and Learn History Picture Library

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.