Cranford (Elizabeth Gaskell)

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Enza Said

Cranford é uma cidade interiorana inglesa fictícia criada por Elizabeth Gaskell. No livro nomeado em homenagem à cidade fruto de sua imaginação, a autora de clássicos memoráveis como Margaret Hale (Norte e Sul), Esposas e Filhas e Ruth emociona o leitor mais uma vez com personagens carismáticos e um enredo encantador.

Cranford é uma novela (modalidade textual um pouco menor que um romance) que foi publicada pela primeira vez entre dezembro de 1851 e maio de 1853 e acompanha as alegrias e tragédias de seus habitantes (majoritariamente mulheres solteironas e viúvas) e visitantes. A maior parte dos eventos relatados, contudo, centram-se na vida cotidiana de um grupo específico de mulheres que praticamente dominam a pequena sociedade local, são elas: Miss Jenkyns e sua irmã Miss Matty Jenkyns, Miss Pole, Mrs. Jamieson, Mrs. Fitz-Adam e Mrs. Forrester. Todas viúvas ou solteironas.

Em primeiro lugar, Cranford pertence às amazonas; todos os moradores das melhores casas são mulheres. Se um casal se muda para a cidade, por algum motivo, o cavalheiro acaba desaparecendo; ou ele se assusta por ser o único homem presente nas festas de Cranford, ou se vê envolvido com seu regimento, navio, ou cuidando de negócios a semana inteira em Drumble, a grande cidade vizinha, que fica à distância de 20 milhas de trem. Resumindo, seja lá o que aconteça com os homens, eles não ficam em Cranford.” – p. 07.

A trama é narrada em primeira pessoa por Mary Smith, jovem filha de um amigo das Jenkyns que já morou em Cranford e que, agora, envia a filha para visitar frequentemente as duas solteironas de modo a permitir ao leitor conhecer cada novidade do pacato lugar sem que, no entanto, conheça muito da própria narradora. Seus relatos, por vezes assumem um tom nostálgico quase melancólico que confere a narrativa um aspecto elegante e distinto, como se fossem Memórias, adicionando um charme a mais à obra.

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Enza Said

Assim, a história se inicia com Mary narrando a chegada a Cranford do Capitão Brown e suas filhas, as Misses Brown e Jessie Brown. A primeira muito doente e a segunda muito bela e tão benevolente a ponto de renunciar uma vida de glórias para cuidar do pai e da irmã.

Logo todas as caricaturais matronas de Cranford começam a comentar sobre o recém-chegado: um homem – eram raros na cidade – esquisito, que se declarava abertamente pobre e possuidor de um gosto literário que incomodava a autoritária Miss Jenkyns sobremaneira. Ele era um ser muito peculiar e estranho às regras e convenções que a própria Cranford criara para se reger. Cranford era uma cidade onde seus residentes sabiam das condições não tão abastadas de todos que ali moravam e, ainda assim, fingiam não saber – ou pelo menos fingiam não saber que os mais abastados em pouco superavam os mais pobres – de modo que as declarações de pobreza do Capitão eram consideradas uma afronta das mais escandalosas; uma cidade que inventara sua própria moda (não se importava com vestidos velhos, mas as toucas e os chapéus teriam que ser os da última estação) e que era assim há tanto tempo, cheia de normas e manias, que parecia inadmissível um estranho quebrá-las dessa forma.

De todo modo, as senhoras de Cranford, por fim, passaram a se acostumar com os modos do velho Capitão, seja por seu jeito encantador ou por piedade às filhas. A verdade é que as habitantes da cidadezinha acabaram por criar certo afeto por essa família um tanto excêntrica. Com exceção de Miss Jenkyns. Esta, na casa dos sessenta anos, era autoritária e firme em suas opiniões de tal maneira a amedrontar qualquer um que as contrariasse, especialmente sua irmã mais nova, Miss Matty.

Assim, entre festas e discussões acaloradas sobre livros e autores, idas e vindas da narradora, visitas inesperadas e noivados surpreendentes, o leitor acompanha bem de perto a rotina desses habitantes peculiares por intermédio de uma narrativa leve e descontraída, que torna os personagens mais especiais à medida que avança as páginas. Dentre esses personagens, além da própria adorável jovem narradora, seria quase um sacrilégio não destacar Miss Matty.

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Enza Said

Miss Matty é a irmã mais nova de Miss Jenkyns e a figura mais notável da pitoresca Cranford. No início do livro, parecia mais uma sombra tímida da irmã do que qualquer outra coisa; aterrorizada com a possibilidade de contrariá-la, acabou tomando decisões das quais veio a se arrepender amargamente no futuro e, com o passar das páginas, o leitor perceberá que criatura amável é Miss Matty e, sem dúvida, vai amá-la tanto quanto os que a cercam. É por isso que ela é uma das personagens mais adoráveis e queridas da literatura, com sua bondade e generosidade Miss Matty vai conquistando os leitores aos poucos e, quando se percebe, um vínculo de afeto e admiração já foi criado com aquela senhorinha tão simpática. De seu exemplo é possível extrair lições de caridade, respeito e humildade atemporais e, por isso e mais, ela se torna o ponto alto da trama.

Cranford é uma obra que faz gargalhar e se emocionar; sorrir com os olhos marejados; que entra para os seus favoritos antes mesmo de terminar de ler, e mostra a razão pela qual Mrs. Gaskell foi e é venerada por seu estilo particular de retratar a sociedade inglesa de seu tempo, principalmente as camadas mais baixas da população. As manias das senhoras, as suas relações de amizade, companheirismo e lealdade em toda a sua simplicidade; as dores e as dificuldades que enfrentam; tudo é tão bem descrito e envolvente que, num instante, o leitor se torna íntimo dessas mulheres, quase parte de seu seleto grupo e membro assíduo de suas reuniões para o chá; aborrecendo-se e entristecendo-se com elas em seus piores momentos, regozijando-se e celebrando em seus melhores.

Nesta novela encantadora, Gaskell enreda o leitor com uma narrativa gostosa, irônica, saudosa e emocionante. Seus personagens, essencialmente carismáticos, quase instantaneamente, irão transportá-lo para a atmosfera bucólica de uma típica cidadezinha interiorana inglesa do século XIX, fazendo com que sinta no mais profundo de seu ser as preocupações e outros tormentos das pessoas simples que habitavam Cranford.

Além disso, a edição da Editora Pedrazul está formidável e conta com uma das capas mais belas de seu catálogo; as ilustrações originais de Hugh Thomson enriquecem ainda mais o livro e a tradução está impecável, absorvendo muito bem o estilo de Elizabeth Gaskell, transpassando com maestria este tesouro literário para a língua portuguesa.

Por fim, vale dizer que esta novela é um prato cheio para todos os amantes de clássicos ingleses e está entre os que a literatura vitoriana tem de melhor. Simultaneamente bem-humorada e comovente, Cranford é muito recomendável a todos e todas que desejam passar uma prazerosa tarde no interior da Inglaterra, desfrutando de uma boa xícara de chá com personagens marcantes e uma história inesquecível.

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Onde comprar:

Pedrazul | Livraria da Travessa

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Eu amei essa resenha! Sério, muito linda. Fiquei com uma vontade enorme de ler “Cranford”.
    Lembro que eu traduzi duas páginas dele pra uma matéria da faculdade e só esse pouquinho já foi divertidíssimo! E muito rico.
    Beijos!
    P.S.: Essa capa é muito bonita mesmo. Quando a Pedrazul participar de uma Bienal, tem que fazer um stand com todas os livros de frente. As pessoas não vão resistir!

    • Enza Said

      Obrigada, Rebeca! Cranford é uma obra maravilhosa. Nunca imaginei que fosse amar tanto essa história. Recomendo demais e concordo muito quanto a um estande da Pedrazul, os leitores iriam ficar encantados, as capas são tão lindas quanto os livros.

      • Isladi Rossi

        E as ilustrações?? Adorei também?

  • Leila Maciel

    Mais uma resenha linda, Enza. O livro eu não tenho, mas sei que há uma série de tv ou algo assim baseada nesse livro. Vou assistir e depois lê-lo.
    Abraços 🙂

    • Enza Said

      Obrigada pelo carinho, Leila! Há uma série sim, mas ainda não assisti porque queria ler o livro antes. 🙂