Contos (Katherine Mansfield)

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Miss Brill

Senhorita Brill foi o primeiro conto que li de Katherine Mansfield e já me deu uma ideia sobre o que viria depois; gostei muito e reli, antes mesmo de ler os outros. Ele conta a história de uma senhora que passa os seus domingos em uma praça, e através dela, de sua solidão, um mundo de sentimentos nos invade, como se em algum momento da vida todos fossemos um pouco como a velha senhorita Brill: um pouco atores, um pouco expectadores, nesta vida ao mesmo tempo rotineira e cheia de incertezas.

“Embora o tempo estivesse esplêndido – um céu azul polvilhado de ouro e grandes manchas de luz espalhando-se sobre os Jardins Publiques –, Miss Brill estava contente por ter resolvido pôr sua estola de pele de raposa.”

“Ah, como era fascinante! Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”

“No caminho de volta para casa ela costumava comprar na padaria uma fatia de bolo de mel, era o seu regalo dos domingos. Às vezes no seu pedaço havia uma amêndoa, às vezes não. Fazia muita diferença. Se houvesse a amêndoa é como se ela tivesse trazido um minúsculo presente para casa – uma surpresa, alguma coisa que poderia muito bem não estar ali. Nos domingos de amêndoa ela se apressava, e acendia rapidamente o fogo para a chaleira.”

 

Tomada de hábito

Imagina se descobrir apaixonada por um ator, assim, de repente, estando comprometida com outra pessoa! Assim é a história de Tomada de hábito, que narra a trajetória da jovem Edna, que se vê confusa entre dois cavalheiros. A partir daí só haveria um destino para a moça: ir para um convento.

“Algo horrível tinha acontecido. Inesperadamente, no teatro, a noite passada, quando ela e Jimmy estavam sentados um ao lado do outro no balcão nobre, sem nenhum aviso prévio – na verdade, Edna tinha acabado de comer uma amêndoa coberta com chocolate e devolvera a caixa para Jimmy – ela se apaixonou por um ator. Realmente se apaixonou.”

 

A vida de Mãe Parker

A vida de Mãe Parker é um conto marcante! Retrata uma mulher de vida difícil, dura… Tão dura e tão atarefada que não havia sequer tempo ou lugar adequados para chorar os seus infortúnios! A história começa com a notícia do falecimento do neto de Mãe Parker e a partir daí conhecemos sua trajetória.

“Não haveria um lugar onde ela pudesse se esconder e ficar consigo mesma o tempo que quisesse, sem perturbar ninguém, e sem que ninguém a importunasse? Não haveria algum lugar no mundo onde ela pudesse chorar abertamente – por fim?”

 

A fuga

No conto A fuga, um casal perde o trem e tem de fazer parte da viagem em uma carruagem, para a fúria da esposa. A partir daí somos transportados para os conflitos da viagem do casal, “um retrato divertido da vida doméstica inglesa.”.

“– Oh, por que é que eu tenho que suportar essas coisas? Por que tinha que estar sujeita a elas? (…) A claridade, as moscas, enquanto ele e o chefe da estação juntavam suas cabeças sobre a tabela dos horários, tentando encontrar aquele outro trem, o qual certamente eles não conseguiriam pegar.”

 

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Je ne parle pas français

Tendo como cenário uma pequena cafeteria, em Je ne parle pas français (eu não falo francês), um escritor narra a sua história ao ler a frase título do conto em um pedaço de papel, que o faz relembrar fatos importantes de seu passado.

“Mas, então, mais que de repente, no fim da página, escrito em tinta verde, me deparei com aquela estúpida frasezinha: Je ne parle pas français. (…) Deus do céu! Serei capaz de vivenciar sentimentos tão fortes quanto esse? Mas eu estava absolutamente inconsciente! Não possuía uma frase sequer para defini-lo! Estava arrebatado, abismado. Nem mesmo tentei, sequer da maneira mais obscura, tentar entendê-lo.”.

“Perguntas: Por que sou tão amargo com a Vida? Por que a vejo como uma catadora de trapos de filme americano, arrastando-se num xale imundo e com as velhas garras recurvadas sobre uma bengala?

Resposta: resultado direto do cinema americano agin­do sobre uma mente fraca.”

Ah! Pardon, monsieur!” disse a encantadora criatura alta, vestida de preto, com um grande busto e um grande buquê de violetas caindo dele. O movimento do trem atirou o buquê exatamente nos meus olhos… “Ah, pardon, monsieur’.”

Mas olhei para ela sorrindo maliciosamente.

“Não há nada que eu aprecie mais, madame, que flores numa sacada.”

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Biografia de K.Mansfield aqui.

Tamires de Carvalho

Estudante de Letras (Português/Literaturas), sempre foi apaixonada pelo universo dos livros. Descobriu na Literatura Inglesa uma grande fonte de prazer e inspiração. Também acha estranho falar de si mesma na terceira pessoa. Contato: ts.carvalhosantos@gmail.com