Como Emma de Jane Austen mudou a cara da ficção

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A história de uma heroína iludida em um pequeno vilarejo, Emma de Jane Austen mal parece revolucionária. Mas 200 anos depois de ser publicada, John Mullan argumenta que a obra está ao lado dos trabalhos de Flaubert, Joyce e Woolf como um dos melhores romances experimentais.

Em janeiro de 1814, Jane Austen se sentou para escrever um romance revolucionário. Emma, o livro que escreveu durante o ano que seguia, iria mudar o formato do que era possível na ficção. Talvez pareça estranho chamar Austen de “revolucionária” – certamente alguns dos grandes pioneiros na história do romance inglês também pensaram isso. De Charlotte Brontë que viu somente “limites claros” e um elegante confinamento em sua ficção, até DH Lawrence, que a chamou de “inglesa no pior, cruel e esnobe sentido da palavra”, muitos a consideraram limitada ao mundinho e às pequenas preocupações de seus personagens. Alguns dos grandes modernistas ficaram perplexos. “O que é tudo isso sobre Jane Austen?” Joseph Conrad perguntou a HG Wells. “O que há nela? Sobre o que é tudo isso a seu respeito?” “Não gosto de Jane… nunca vi nada em Orgulho e Preconceito“, Vladimir Nabokov disse ao crítico Edmund Wilson.

Austen não deixou nenhum manifesto artístico, nenhuma explicação de seus métodos narrativos além de umas poucas observações divertidas em cartas para a sua sobrinha Anna. Isso fez com que fosse fácil para romancistas e críticos concordarem com o pensamento de Henry James sobre ela como sendo “instintiva e encantadora”. “Para ter exemplos claros do que o processo de composição, distribuição e arranjo podem fazer, de como eles intensificam a vida de um trabalho artístico, temos que ir mais longe”. Ela mal sabia o que estava fazendo, então, implicitamente, um romancista inovador como James não tem nada a aprender com ela.

Houve algumas exceções. No ano que ele publicou More Pricks Than Knicks, o jovem Samuel Becket disse a seu amigo Thomas McGreevy que “agora que estou lendo a divina Jane, acho que ela tem muito a me ensinar” (espera-se que os livros grossos de escola tenham ajudado na influência de Jane Austen em Samuel Beckett). Romancistas contemporâneos têm estado mais dispostos a reconhecer sua genialidade e influência. As Janeites sentiram enorme satisfação em ver que o romance britânico mais formalmente engenhoso dos últimos anos, Atonement de Ian McWwan, possui uma longa epígrafe de Northanger Abbey em sua abertura.

Emma, publicado há 200 anos, foi revolucionário não pelo seu tema: a descrição brincalhona de Austen para Anna de um tema perfeito para um romance – “Três ou quatro famílias em um vilarejo no campo” – se encaixa bem. Certamente não foi revolucionário por nenhum conteúdo intelectual ou político. Mas foi revolucionário em sua forma e técnica. Sua heroína é uma jovem moça autoiludida com prazer e poder de se intrometer na vida dos seus vizinhos. A narrativa foi radicalmente experimental porque foi projetada de modo a compartilhar os seus enganos. O romance torce a narração através das lentes distorcidas da mente da protagonista. Embora pouco notado pela maioria dos pioneiros da ficção no século seguinte e mais, a obra está ao lado de grandes romances experimentais de Flaubert, Joyce ou Woolf. Woolf escreveu que se Austen tivesse vivido mais e escrito mais “ela teria sido a precursora de Henry James e de Proust”. Em Emma, ela é.

Para medir a audácia do livro, basta pegar uma simples frase que nenhum romancista antes dela poderia ter escrito. Nossa privilegiada heroína fizera amizade com um doce, aberta e profundamente ingênua garota de 17 anos chamada Harriet Smith. É uma relação inteiramente desigual: Emma é a mulher mais rica e mais inteligente em Highbury; Harriet é a “simples filha de alguém”, deixada como uma moradora permanente da escola para garotas bem-educadas na cidade. Enquanto cultivava sua relação, Emma sabia muito bem que Harriet era inferior a ela. “Mas, em todos os aspectos, como ela via mais dela, ficou firme em todos os seus bondosos planos”.

A frase está na terceira pessoa e ainda assim nós não estamos sendo exatamente avisados pelo autor. “Bondosos planos” é o julgamento complacente da própria Emma. Até a rima na frase a faz soar melhor para si mesma. De fato, a bondade está toda nos olhos de quem vê. Emma determinara moldar Harriet. A velha companheira de Emma, srta. Taylor, tinha se casado e se tornado a sra. Weston, deixando-a solitária e em uma ponta solta. Harriet seria o seu projeto. Seus planos são bondosos, ela diz para si mesma, porque melhorará a sua iletrada e ingênua jovem amiga. Deveríamos ser capazes de ouvir, no entanto, que seus planos são completamente egoístas. Logo ela estaria persuadindo Harriet a recusar um pedido de casamento de um fazendeiro que a ama e iludindo-a com uma perspectiva totalmente ilusória de um casamento com um jovem e tranquilo vigário, sr. Elton.

Pegue outra pequena frase mais para o fim do romance. No momento, Emma está convencida de que Harriet, menosprezada pelo sr. Elton, pode formar par com o altamente elegível Frank Churchill. O único impedimento parece ser a inflexível sra. Churchill, a mãe adotiva de Frank, que espera que ele encontre uma esposa muito mais grandiosa. Então a notícia da súbita morte da sra. Churchill chega. Emma se encontra com Harriet, que também ouviu. “Harriet comportou-se extremamente bem na ocasião, com grande autocontrole”. Obviamente ela está aprendendo ter domínio de si com a sua patrona. “Emma ficou satisfeita em observar tal prova de seu caráter fortalecido”.

Exceto que isso era tudo tolice. Harriet não se importava com Frank, nunca se importou. Emma tinha, elaboradamente, se desiludido novamente. A narrativa segue o caminho de erros de Emma. De fato, o leitor de primeira viagem, às vezes, vai seguir esse caminho também e então compartilhar da surpresa da heroína quando a verdade cair sobre ela. Ainda assim é uma narrativa em terceira pessoa; Emma não está contando sua própria história. Ambos compartilhamos de seus julgamentos e a vemos fazê-los.

Austen foi a primeira romancista a conseguir essa química. Ela estava aperfeiçoando uma técnica que tinha começado a desenvolver em seu primeiro romance publicado, Razão e Sensibilidade. Foi só então, no início do século XX, que os críticos começaram a convencionar um nome para isso: discurso indireto livre (uma tradução do original em francês: style indirect libre). Descreve o modo em que o escritor embebe a narração em terceira pessoa com as manias de pensamento ou expressões de um personagem fictício. Antes de Austen, romancistas escolhiam entre narrativa em primeira pessoa (deixando-nos entrar dentro da mente do personagem, mas nos limitando ao seu próprio entendimento) e narrativa em terceira pessoa (permitindo-nos uma visão onipresente de todos os personagens, mas fazendo com que eles fossem parte de um jogo autoral). Austen, milagrosamente, combinou o interno e o externo.

Estudiosos têm buscado através da ficção de predecessores e contemporâneos, como Fanny Burney e Maria Edgeworth, e encontraram alguns lampejos dessa técnica, mas nada mais. Atualmente, romancistas usam isso quase como uma segunda natureza, sem necessariamente dar um nome a isso ou pensar que aprenderam de algum lugar. Ainda assim, apesar de ser sua pioneira, Austen utilizou desta técnica com uma firmeza que jamais ficou ultrapassada. David Lodge tem observando o quão estranha é a condescendência de James, uma vez que ele se especializou na técnica em que a própria Austen era pioneira: “Contar a história por meio da consciência dos personagens cuja compreensão dos acontecimentos é parcial, errônea, mal compreendida ou equivocada”. Tem sido fácil para leitores sofisticados – especialmente romancistas rivais – deixar passar a sofisticação dela.

Quando começou a escrever Emma, Austen já não mais respondia a outros romancistas, ela estava em um novo território, em um diálogo com seus próprios romances que escrevera mais cedo. Ela mergulhou na ficção do século XVIII e do início do século XIX e, em seus primeiros trabalhos, escreveu contra os romances sensíveis e góticos que conhecia tão bem. Mas no furor criativo em que completou seus quatro últimos romances em cinco anos, deixou as convenções dos romances já existentes de lado. Ela começou a trabalhar em Emma antes até que tivesse recebido as provas de Mansfield Park. A heroína deste romance, Fanny Price, era reticente, autorrenegada, impotente e, frequentemente, silenciosa ou ausente. Como se, em resposta ao seu próprio experimento, ela, então, criou uma heroína assertiva, dominante e muito poderosa. Emma Woodhouse é para frente tanto no próprio título do romance quanto em sua primeira frase.

Seu ponto de vista é tão dominante que leva várias releituras até perceber o quão sutilmente somos convidados a imaginar como Emma aparenta ser para alguns dos outros personagens. Como o sr. Elton imagina que ela o está provocando a pedir-lhe em casamento (“Acredito que o modo como o trata é encorajador”, avisa o sr. John Knightley, sem qualquer benefício disso). Como Jane Fairfax teme sua curiosidade e odeia como ela monopoliza Frank Churchill. Como a família Martin deve considerá-la uma esnobe sem coração que afastou Harriet do homem que a ama. Tudo isso é sugerido através dos próprios vislumbres de Emma – que ela esmaga devidamente. A narrativa de Austen decreta as vitórias de sua heroína sobre ela mesma.

Há, contudo, um capítulo cuidadosamente calculado, em todo o romance, narrado pelo ponto de vista de outro personagem. Dentro do terceiro volume, Austen abala o leitor com um capítulo do ponto de vista do sr. Knightley. Ele aparece em um ponto crucial, onde Frank estranhamente se engana ao mencionar um item de fofoca que ele só poderia saber por meio de sua correspondência secreta com Jane: o boticário, sr. Perry, está comprando uma carruagem (porque ele está ganhando bastante dinheiro com as doenças imaginárias de Highbury). Como ele poderia saber? “Deve ter sido um sonho”, Frank ri. Emma não está ouvindo, mas o sr. Knightley está observando. Ele vê quando os personagens principais se sentam para jogar um jogo de palavras (o romance é cheio de jogos e quebra-cabeças) e Frank escolhe as letras para a palavra “engano”. O sr. Knightley vê e começa a suspeitar. “Insinceridade e jogo duplo parecia encontrá-lo toda vez”. O feitiço da consciência de Emma é tão poderoso que Austen tem que nos acordar por um momento. Mas o capítulo termina com sr. Knightley sugerindo a Emma que podia haver algum íntimo “grau de familiaridade” entre Frank e Jane… somente para encaminhá-la em direção às suas suspeitas. “Não há qualquer admiração entre eles, eu lhe garanto”. Ninguém pode dizer que ela não teve a chance de ver a verdade.

Austen tem vários modos diferentes de nos fazer ler Emma. Em momentos-chave, o discurso indireto livre se torna mais próximo do pensamento dramático. Austen desenvolve seu próprio sistema de pontuação para isso. Aqui está a nossa heroína, novamente em casa após o jantar de Natal na casa dos Weston, refletindo sobre o pedido de casamento do sr. Elton (“aproximando-se dela de modo realmente violento”) na carruagem a caminho de casa. Ela se convenceu de que ele estava romanticamente interessado em Harriet; pior, ela convenceu Harriet disso também.

“O cabelo foi cacheado, a criada mandada embora e Emma se sentou para pensar e se sentir extremamente mal. – Era, de fato, um negócio infeliz! – A destruição de tudo o que ela tinha desejado!… Uma pancada para Harriet!… aquilo era o pior de tudo. Tudo nisso trazia dor e humilhação de um modo ou de outro; mas, comparado ao mal que faria a Harriet, era leve; e ela teria, alegremente, se submetido a se sentir ainda mais equivocada – mais em erro – mais desacreditada por um mal julgamento do que ela realmente estava se os efeitos de seus enganos fizessem mal somente a ela mesma.”

A pontuação idiossincrática de Austen, aquele sistema de pontos de exclamação e travessões, permite um tipo de processo de pensamento dramático. Mesmo porque ainda está na terceira pessoa e podemos julgar Emma até quando ela compartilha seus pensamentos. Ela é uma pessoa digna de nossa simpatia porque ela é capaz de reconhecer e sentir mal por seus erros. Mas, pela sutileza sem precedentes da técnica narrativa de Austen, sentimos que Emma lamenta o desdobramento dos seus planos (“A destruição de tudo o que ela tinha desejado!) tanto quanto (ou mais que?) a dor iminente por Harriet. Podemos até ouvi-la tentando persuadir a si mesma (“ela teria, alegremente, se submetido…”) de seu altruísmo.

As inovações estilísticas do romance permitem explorar não só os sentimentos de um personagem, mas, comicamente, sua profunda ignorância de seus próprios sentimentos. Por vaidade, encorajada pelas sugestões do sr. e da sra. Weston, Emma se convenceu de que Frank, que ela nunca havia conhecido, podia ser o parceiro perfeito para ela. Quando ele finalmente aparece, prova que é elegante, bem-humorado e inteligente.

Compreensivelmente, ela logo começa a ver sinais de que ele devia estar se apaixonando por ela; melhor ainda, começa a se convencer de que “ela devia estar um pouco apaixonada por ele”. Algumas confidências divertidas compartilhadas com o tranquilo Frank Churchill e ela presume que isso é verdade. “Emma continuou pensando estar indubitavelmente apaixonada”. Sua capacidade de se autocongratular a ilude sobre as ações de seu próprio coração. Austen não nos diz isso, como George Eliot, iria tão eloquentemente nos dizer: ela simplesmente nos deixa habitar a consciência de Emma, simplesmente nos deixa ver o mundo de acordo com a visão de Emma.

Melhor ainda é a decepção consigo mesma no que diz respeito o homem que ela realmente ama. Quando a sra. Weston sugere que a admiração evidente do sr. Knightley por Jane é prenúncio de um provável casamento, a narrativa nos diz a resposta de Emma, mas também aponta a sua decepção.

“Ela não podia nada além de um desastre nisso. Seria uma grande decepção para o sr. John Knightley; e, consequentemente, para Isabella. Um verdadeiro dano às crianças – uma mudança humilhante e uma perda material para todos eles… uma grande diminuição do conforto diário de seu pai… e, quanto a si mesma, ela não podia suportar a ideia de Jane Fairfax em Donwell Abbey. Como a sra. Knightley para quem todos deveriam abrir alas!… Não… O sr. Knightley não devia se casar nunca. O pequeno Henry devia permanecer como herdeiro de Donwell.”

Quão naturalmente, então, nossa heroína percebe o que é o amor, é um choque terrível. Seu cachorrinho de outrora – agora seu Frankenstein – Harriet revela que ela (não mais tão modesta) também está apaixonada pelo sr. Knightley e tem boas razões para pensar que ele a corresponde. Por que a ideia de Harriet se casando com o sr. Knightley é tão inaceitável? “Ocorreu-lhe, com a velocidade de uma flecha, que o sr. Knightley não devia se casar com ninguém além dela!” Que frase brilhante! Com tamanha ousadia, Austen nos mostra que o amor pode ser uma descoberta de que uma pessoa, sem saber, sentia por muitos meses ou anos. Agora, de repente e pela primeira vez, Emma compreende o enredo de sua própria história. Mas até nesse momento de autorreconhecimento Austen nos deixa ouvir ou sentir a imperiosidade da personagem, sua sensação avassaladora de que os acontecimentos “devem” estar de acordo com seus desejos.

É por isso que aqueles que condenam o romance dizendo que a heroína é uma esnobe deixaram passar essa questão. É claro que ela é. Mas Austen, com a recusa de um moralismo digno de Flaubert, deixa a sua protagonista à mercê de seu esnobismo e, confiantemente, arrisca incitar leitores tolos a pensar que a autora deveria ser um esnobe também. O esnobismo de Emma é impregnado na obra, do momento em que ouvimos a sra. Goddard, a senhora da escola das garotas, e a srta. Bates descritas como “as mais acessíveis” habitantes de Highbury (querendo dizer que elas estão sempre prontas para atender aos desejos de Emma e de seu pai hipocondríaco). Austen é honesta em fazer Emma esnobe até quando ela está certa. Quando o sr. Elton a pede em casamento, ela reconhece o que o leitor sempre soube: ele é convencido, insensível e repulsivo. Mas seu reconhecimento também é dignidade afetada:

“Mas que ele pudesse falar em encorajamento, a considerasse ciente de seu ponto de vista, de aceitar suas atenções, querendo dizer, para resumir, que queria se casar com ele… supor-se igual a ela em conexões e intelecto… enxergar a sua amiga como se ela estivesse abaixo dele, tão ciente dos patamares abaixo de si e tão cego a respeito do que estava acima a ponto de se imaginar exibindo qualquer presunção ao se dirigir a ela… Era muita provocação!”

Similarmente, seus desentendimentos com a sra. Elton, uns dos melhores diálogos cômicos da literatura, mostram que ela é perceptiva e socialmente arrogante em igual medida. A sra. Elton, recém-chegada a Highbury, visita Emma e fala de ter sido apresentada ao sr. Knightley.

“Preciso fazer justiça ao meu caro esposo e dizer que ele não precisa ter vergonha de seus amigos. Knightley é um cavalheiro e tanto. Gosto muito dele. Incontestavelmente, acredito, um cavalheiro.”

Somente quando a sra. Elton vai embora, Emma pode “suspirar” sua indignação.

Um pouco arrogante e vulgar com seu sr. E. e seu caro esposo, seus recursos e todos os seus ares de insolente pretensão e baixo refinamento. Realmente! Acreditar que sr. Knightley é um cavalheiro! Duvido se ele lhe devolverá o elogio dizendo que ela é uma dama. Não poderia nem acreditar! E propor que ela e eu nos unamos a fim de formar um conjunto musica!”

Emma está certa… e, mesmo assim, Emma é muito cheia de si. Ela até, inconscientemente, usa o mesmo vocabulário de sua inimiga, que lhe assegura “tenho horror a arrogantes”.

A magnificamente pavorosa sra. Elton se torna conhecida por meio de sua voz e, em Emma, Austen descobre novas formas de fazer a voz humana impressa ganhar vida. Algumas de suas técnicas preveem as ingenuidades do modernismo. Quando a sra. Elton colhe morangos no piquenique do sr. Knightley em Donwell Abbey, um parágrafo de um monólogo quebrado dramatiza, brilhantemente, o que deve ser, pelo menos, meia hora digna de tagarelice.

A melhor fruta na Inglaterra… a favorita de todos… sempre saudável. Essas são das melhores colheitas e dos melhores tipos… Muito prazeroso colhê-las para si mesmo… o único jeito de aproveitá-las. Pela manhã, incontestavelmente, é a melhor hora… nunca cansada… todo tipo de bem… este tipo é bem raro… Chili é preferido… madeira branca é o melhor sabor de todos… preço de morangos em Londres… abundância em Bristol… Maple Grove… cultivo… colheitas a serem feitas… jardineiros pensando bem diferente… sem regra geral… jardineiros nunca dizem o que fazem… fruta deliciosa… só muito rica para se comer demais… inferior a cerejas… groselhas são mais refrescantes… única objeção a colher morangos é ter que se inclinar… sol brilhante… muito cansada… não poderia suportar mais… preciso ir e sentar na sombra.”

Um progresso grotesco de um entusiasta sabe-tudo até exaustão devido ao sol. Para a tagarela srta. Bates, os bons  habitantes de Highbury cansavam, Austen inventa um diferente tipo de efusão monológica que alguns chamaram de Joyceano. Aqui está um pequeno exemplo enquanto a srta. Bates chega ao Baile na Hospedaria Crown.

Obrigada, minha mãe está extraordinariamente bem. Foi à casa do sr. Woodhouse. Fiz com que ela levasse seu xale… as tardes não estão tão quentes… seu grande e novo xale… Um presente de casamento da sra. Dixon. Tão gentil da parte dela pensar em minha mãe! Foi comprado em Weymouth, sabe? Escolhido pelo sr. Dixon. Havia três outros, Jane disse, que os fizeram hesitar por um tempo. O Coronel Campbell preferiu um cor de oliva. Minha querida Jane, tem certeza de que não molhou seus pés? Caiu uma gota ou duas, mas receio tanto… no entanto, o sr. Frank Churchill foi tão bom… e havia uma espécie de tapete para pisar. Nunca esquecerei sua extrema educação.

E assim por diante. Há outras pessoas aqui, não só ouvindo, mas falando, ou tentando falar. E, ainda assim, a voz da srta. Bates, se autorregenera sem cessar, torna-se, por um momento, a única voz que podemos ouvir.

Emma mal escuta a sua “prosa” e há leitores que, igualmente, pularam os detalhes de sua fala. Mas um dos truques de Austen é incorporar uma pista de artimanhas de outros personagens no ingênuo desabafo desta solteirona ignorada. “O que está diante de mim, já vejo”, ela diz, tipicamente declarando-se incapaz de perceber o que é indireto ou implícito. Mas o que ela diz é mais verdadeiro do que qualquer um pode ouvir: ela é uma confiável testemunha do que realmente está acontecendo. Até mesmo a passagem acima oferece pistas do que Frank realmente estava fazendo. Se essa é uma história de detetive, então a srta. Bates é a figurante, contribuindo com o testemunho, aparentemente, trivial que é perigosamente ignorado.

Frank, é claro, está tendo um romance secreto com Jane, a sobrinha órfã da sra. Bates, mas ele é tão esperto que é fácil deixar passar os seus truques. Ao compartilhar da perspectiva de Emma, por vezes também somos enganados. Talvez, numa segunda leitura do romance, fiquemos adequadamente desconfiados das razões de Frank para consertar os óculos da sra. Bates: Jane está ficando no apartamento das Bates e ele sempre arruma desculpas para visitá-las. Mas leva, provavelmente, mais do que duas leituras para os leitores perceberem como ele conseguiu tirar a srta. Bates do apartamento – ela faz o maior alvoroço na rua para convidar Emma para entrar – a fim de ficar sozinho com Jane e a velha adormecida (e surda como uma pedra) sra. Bates. Quando entramos pela porta com Emma, vemos tudo com os seus olhos.

A aparência da pequena sala de estar, enquanto entravam, era da maior tranquilidade; a sra. Bates, privada de suas ocupações comuns, estava adormecida ao lado da lareira, Frank Churchill, perto de uma mesa próxima a ela, trabalhando concentrado em seus óculos e Jane, de costas para eles, atenta ao seu piano.

Emma não vê nada inconveniente… mas o que realmente estivera acontecendo? Por que Frank está trabalhando tão “concentrado” e Jane tão “atenta” a um instrumento musical? Certamente eles compartilharam um abraço apertado. É como se houvesse uma história de Charlotte Brontë acontecendo debaixo do nariz de Emma.

“As paixões são perfeitamente desconhecidas por ela”, Brontë declarou, soando como uma personagem que Austen teria retratado com prazer. Orgulho e Preconceito havia sido recomendado a ela pelo parceiro de George Eliot, George Henry Lewes, que foi parcialmente responsável pela alta estima em que Eliot tinha Austen em comparação à maioria dos outros grandes romancistas do século XIX. O ensaio de Lewes de 1859 na revista Blackwood ainda é uma das análises mais perspicazes dos poderes de Austen.

Mas ao invés da descrição, o comum e fácil recurso dos romancistas, ela possui a rara e difícil arte da apresentação dramática: ao invés de nos dizer o que seus personagens são e o que sentem, ela apresenta as pessoas e elas se revelam. Nisso, ela talvez jamais tenha sido superada, nem mesmo pelo próprio Shakespeare.

Lewes ainda era um dos poucos, entre importantes escritores, a dar a ela esse status. Mas então, com Emma, Austen quase parece estar tentando leitores sem atenção a deixar passar a sua audácia técnica… a deixar passar seus truques.

Nenhum dos romances de Austen é tão cheio de truques quanto Emma e muitos deles são cuidadosamente escondidos a fim de premiar aquele que releu o romance. Lembro-me do momento, depois de muitas releituras ao longo dos anos, quando eu finalmente vi o que ela estava fazendo com o sr. Perry, o boticário. Todos estavam se referindo a ele, especialmente o preocupado pai de Emma, sr. Woodhouse: “como Perry diz…”; “… isso é o que Perry disse”; “Ah! Minha querida, mas Perry tinha muitas dúvidas sobre o mar fazer algum bem a ela”. O sr. Perry é sempre visto passando (todas aquelas lucrativas visitas que ele fez as casas) e suas opiniões são sempre relatadas a todos. E, mesmo assim, nenhuma de suas palavras realmente aparece em todo o romance. É claro que não! Ele é o eco dos preconceitos existentes de todos; não surpreende o porquê de ser tão bem-sucedido. É uma piada enterrada por Austen para uma descoberta posterior. Como ela disse à irmã Cassandra, ela só escrevia para aqueles que tinham “um bom tanto de ingenuidade”.

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Fonte: The Guardian

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Esse texto foi perfeito! Uma ótima análise da técnica avançada de Austen. Gostaria de ter lido antes, para o meu TCC. Eu analisei a ferramenta que ela usa – a focalização – na construção do Sr. Darcy, em “Orgulho e Preconceito”. Ela dominou essa arte e aperfeiçoou variações dela tão bem! A surpresa, a reviravolta, a manipulação do ponto de vista do leitor. Nossa, quando eu paro pra pensar, ainda me supreendo com essa mulher!

    Esse artigo trouxe muitas coisas que eu já tinha pensado, mas desenvolveu e acrescentou de uma maneira maravilhosa (a leitura foi super proveitosa). E, realmente, foi na terceira leitura de “Emma” que eu peguei a “coisa” por completo.

    Ah, esses autores que não entendiam a Jane… Nem consigo criticá-los. Imagina a infelicidade de ser incapaz de aproveitar um livro de Jane Austen? Céus, que lástima!

    Beijos e até mais!

    • Enza Said

      Rebeca, não poderia concordar mais com você. É muito triste pensar que existiram e existem pessoas que não puderam nem podem compreender a grandeza da obra de Jane e como ela foi importante para a literatura…

  • Luciana Campelo

    Que texto maravilhoso! Toda fã de Jane Austen deveria ler, sem sombra de dúvida. Parabéns!

  • Dandara Machado

    Acredito que a principal característica que Jane Austen possuía era a alta capacidade de compreender a natureza humana, que ela usava para criar os seus personagens e isso pode ser visto em Emma.
    Muito obrigada pelo post,
    Dandara