As Ondas

Por Caio F. Abreu

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A Sétima Voz

Em nove nítidos e distintos movimentos, três homens (Bernard, Louis e Nevville) e três mulheres (Susan, Rhoda e Jinny) monologam sobre suas vidas, da infância à velhice. Em contraponto, o Sol tece seu percurso diário sobre o mar. Há uma sétima voz, ausente, Percival, que jamais se manifesta, aparecendo apenas em referências dos outros personagens. Por volta do meio-dia, no quinto movimento, o Sol e as vidas de cada um começam a declinar. Se até esse momento cintilava o brilho das descobertas a serem feitas, das coisas a serem vividas, à medida que a noite se aproxima, aproxima-se também a solidão inevitável da velhice.

Diz Jinny: “Esta é a pausa de um momento: o momento sombrio. Os violinistas erguem seus arcos”. E, quando, os arcos tocam as cordas, inexorável como o movimento do dia, a vida desaba. É Bernard quem reconhece: “Durante todo o dia de trabalho, em intervalos, minha mente ia a um lugar vazio, dizendo: ‘O que se perdeu? O que terminou?’ E murmurei: ‘Acabou, acabou’ “. Como temas de uma peça barroca, enovelam-se os altos e baixos de esperanças e frustrações, cada vez mais próximos da dura consciência de que um ser humano pouco ou nada pode fazer pela solidão do outro.

Em 1930, Virginia anotava em seu diário, referindo-se a um romance provisoriamente intitulado Os Efêmeros: “Acho que este é o mais complexo e o mais difícil de meus livros. Como terminá-lo, a não ser por uma enorme discussão na qual cada vida terá sua voz, uma espécie de mosaico, não sei”. Um ano depois, saía a primeira edição de As Ondas, que chega ao Brasil quarenta anos depois do suicídio da autora, em excelente tradução de Lya Luft.

Julius LeBlanc Stewart (1855 - 1919)

Julius LeBlanc Stewart (1855 – 1919)

Apesar da insegurança inicial, Virginia Woolf parecia compreender perfeitamente a grande obra que estava compondo. Assim, rompendo radicalmente com as normas ficcionais da época, ela solidificou a originalidade narrativa numa estrutura quase matemática. Talvez por isso a soberba técnica de As Ondas aproxima-se muito mais da música erudita, como observou sua tradutora francesa, Marguerite Yourcenar, que da literatura.

Ao final do dia, para os seis personagens, resta ainda uma última batalha a ser travada, contra a morte – batalha que a própria Virginia abreviou jogando-se no rio Ouse. Sua sensibilidade não passou impune mas, neste romance perfeito como uma composição de Bach, fica registrada a sensação de que, talvez, “por um momento, nossa vida se ajusta à majestosa marcha do dia através do céu”.

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Caio F. Abreu
Publicada na Revista Veja, em 21 de janeiro de 1981
Fonte: http://livroecafe.com/

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.