As ilustrações de Hugh Thomson para Cranford, de Elizabeth Gaskell

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Foto: Enza Said

Sabe-se que, quando as ilustrações de Hugh Thomson de Cranford apareceram pela primeira vez em 1891, seu trabalho foi amplamente aclamado. Isso porque suas ilustrações retratavam uma sociedade que estava desaparecendo. Elas representavam de maneira fiel e nostálgica um período da Era Vitoriana que estava se perdendo e seu estilo – seus traços – viriam a influenciar vários artistas no futuro. E, contudo, ele não foi o primeiro ilustrador do trabalho de Gaskell.

Cranford foi publicada pela primeira vez entre dezembro de 1851 e 1853 na revista Household Words, de Charles Dickens. No entanto, não havia ilustrações na obra. Foi só em 1864, quando a revista Cornhill Magazine editou a história de Gaskell, que ilustrações passaram a acompanhá-la.

No artigo Cranford’s Illustrator, Richard Smith nos conta que as primeiras ilustrações de Cranford foram feitas por George du Maurier, mas, ainda assim, só havia quatro: na capa; um retrato do primeiro encontro entre Miss Matty e Mr. Holbrook; Martha e Jem oferecendo um lar à Miss Matty e, finalmente, Miss Matty reunida com Peter novamente.

Smith destaca que as escolhas de Du Maurier representam momentos importantes da história de Miss Matty, já que ela devia ser, em sua opinião (acertada, na minha) o foco da história. Mas, talvez pelo número de páginas comissionadas limitado, outros personagens acabaram sendo excluídos de suas ilustrações, como Miss Jenkyns e o Capitão Brown.

Diante disso, Smith especula que Gaskell não deve ter tido qualquer influência no processo criativo do ilustrador visto que não há registro de qualquer comunicação entre ambos. Na verdade, é mais provável que a inclusão das ilustrações para essa edição de 1864 estivesse ligada com o modo que os editores queriam que o público visse a obra do que com o modo que a autora queria que seu trabalho parecesse aos olhos de seus leitores e Gaskell sequer aproveitou outra oportunidade de ter algo deste tipo com Cranford visto que veio a falecer em 1865.

Ok, mas quem é Hugh Thomson? O ilustrador nasceu na Irlanda, em Coleraine e era bem popular em seu ofício ao final do século XIX. Seu estilo, que era bastante influenciado por Randolph Caldecott (outro ilustrador britânico de livros, principalmente infantis, reconhecido pela Academia Real Inglesa de Artes), marcou época e foi reconhecido por atribuir ao período das obras não só de Gaskell, mas até mesmo de Jane Austen, Charles Dickens e Oliver Goldsmith, um charme peculiar do tempo em que os respectivos enredos eram situados. Para se ter uma ideia de como ele era considerado talentoso e popular, o artista irlandês ilustrou nada mais nada menos que Orgulho e Preconceito!

Foto: Enza Said

Foto: Enza Said

Na famosa novela de Gaskell, suas “amazonas” eram, em sua maioria, solteironas e viúvas agarradas às tradições e costumes de sua juventude e Hugh Thomson não falhou em detalhar essas singularidades em seus desenhos ao esboçar as personagens com um estilo baseado no do início de 1840 (dez anos antes da publicação de Cranford). Há inúmeras referências a mobílias antigas e paisagens rurais que expressam uma atmosfera bucólica nostálgica, não industrializada, de tempos mais simples os quais as ansiedades das produções em massa e da industrialização ainda não haviam tomado.

Além disso, as ilustrações de Thomson têm um destaque maior em comparação às de Maurier. Richard Smith comenta que o traçado das linhas acompanha os humores de Cranford mais precisamente e dão mais atenção às idiossincrasias nas quais Elizabeth Gaskell deposita seu próprio humor. De fato, Thomson desenha Miss Matty com “doce satisfação” usando, inconscientemente, dois chapéus e tantas outras cenas da querida senhorinha imersa em suas manias fielmente.

Ele não deixou nenhum detalhe escapar e pôs no papel exatamente o que Cranford aparentava ser. Por vezes exibiu as tão famosas amazonas de Cranford, seus chapéus, as velas que Miss Matty tentava economizar e as reuniões das senhoras de Cranford para chá e jogos de modo tão real que não fica difícil visualizá-las durante a leitura.

O ilustrador afirmou que o processo de ilustração de Cranford foi fácil e admitiu que essa facilidade tinha algo a ver com a sua identificação com as personagens principais. Certa vez, em uma entrevista, ele se referiu à sua infância em uma cidadezinha na Irlanda e disse: “todo homem deve reconhecê-las em sua cidade natal quando se era criança. Eu mesmo me lembro de duas senhoras idosas que eu conheci quando era criança que poderiam ser parte do livro” [Spielmann, p. 129].

Apesar de tudo, um dos aspectos mais notáveis nas ilustrações de Thomson é o que ele resolve não retratar, aponta Richard Smith. Vários momentos importantes da trama são deixados de lado em favor de outras cenas mais “periféricas”, como a do reencontro de Miss Matty e Peter que é omitida pelo ilustrador em favor de outros momentos cotidianos. Esse distanciamento dos clímax do enredo pareceram, por vezes, aos olhos de críticos da época como incoerentes, ainda mais porque Du Maurier, o primeiro ilustrador, estava restrito a apenas quatro imagens em 1864 e, mesmo assim, achou essa cena importante o suficiente para ilustrar.

Foto: Enza Said

Foto: Enza Said

Entretanto, há críticos que argumentaram exatamente o contrário dos que reprovavam Thomson por sua escolha um tanto incomum. Argumentaram que a opção do ilustrador engrandece a escrita de Gaskell à medida em que a deixa falar por si mesma, sem distrações desnecessárias.

É por isso que algumas das ilustrações mais encantadoras de Thomson são aquelas que, enquanto ajudam a tocar a história para frente, auxiliam na definição de um personagem, dão uma visão melhor dele e fazem com que, nós leitores, mergulhemos dentro das particularidades de cada habitante de Cranford. Um bom exemplo é quando ele gasta meia página retratando uma simples frase do Capitão Brown a fim de mostrar a sua humildade, sua simplicidade, solicitude e dócil caráter: “O capitão tomou as compras das mãos de uma pobre senhora, num domingo chuvoso”.

Foto: Enza Said

Foto: Enza Said

Logo, Smith aponta que opção de Thomson por enfatizar o escapismo nostálgico de Cranford é simplesmente uma opção. Ele deixa o drama de Cranford por conta de Gaskell e permite que sua prosa seja exaltada enquanto delineia uma atmosfera que não se sobrepõe à narrativa, mas que a complementa. As suas ilustrações vão de encontro a todo estresse, a toda pressa do tempo ao qual pertencia e é isto as enriquece sobremaneira: elas traziam para o leitor das cidades industriais uma realidade cada vez mais rara na moderna e industrial Inglaterra do fim do século XIX.

A edição brasileira publicada pela Editora Pedrazul conta com essas ilustrações tão preciosas e faz com que a leitura se torne ainda mais prazerosa. Enquanto temos a oportunidade de saborear um espetáculo de escrita, podemos nos deleitar nas figuras derramadas tão naturalmente sobre as páginas, o que faz com que nossa imersão na história seja ainda mais profunda. Talvez elas tenham sido grandes responsáveis por fazer com que eu mesma me apegasse tanto a Cranford e a suas amazonas ao materializá-las nesta edição tão bela. Mais um trabalho magnífico da editora capixaba: resgatar não só esta obra admirável, mas também estas ilustrações estonteantes.

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Fontes:

Gaskell, Elizabeth. Cranford. Domingos Martins: Editora Pedrazul. 2016.
Smith, Richard. Cranford’s Illustrator – Hugh Thomson. Victorian Visual Culture.

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Isladi Rossi

    Terminei Cranford esta semana e simplesmente é maravilhoso, adorei. Antes de ler, tive a oportunidade de ver a série Cranford e Return to Cranford, que é baseada no Chalé de Moorland, de Elizabeth também. Ambos adoráveis.

    • Enza Said

      Cranford é incrível mesmo. Eu me senti tão “em casa” com os personagens, fiquei com vontade de abraçar todo mundo ali. O sentimento que ficou após a leitura é um misto de satisfação e nostalgia… Ainda não assisti à série, mas vou fazê-lo assim que possível. Beijos!

      • Isladi Rossi

        Exatemente este foi o sentimento que tive quando li o livro e quando você assistir a série vai poder “materializar” as queridas Sras. de Cranford, sendo Miss Matilda Jenkins ninguém menos que a diva Judi Dench. E caso você não saiba, Returno to Cranford é a história de O Chalé de Moorland, também uma delícia de assistir!!

        • Enza Said

          Que amor! Vou assistir assim que possível. Obrigada pela recomendação tão calorosa. Abraços!