As Horas

“A única experiência que nunca descreverei.”

Virginia Woolf

Mas foi descrita brilhantemente por Michael Cunningham no prólogo de “As Horas”. Ele descreve a morte de V. como se ele fosse ela, ele vê cada passo que ela deu e o que viu no caminho para o rio Ouse. Seu corpo no Ouse e sua chegada a ponte é descrita como se ele estivesse lá e nós, que lemos, somos arrastados pelo rio com os dois. Fascinante!

PRÓLOGO 

GradivaEla sai apressadamente de casa, com um casaco pesado de mais para o tempo que estava. É o ano de 1941. Começou outra guerra. Deixou um bilhete para Leonard e outro para Vanessa. Caminha decididamente em direção ao rio, segura do que vai fazer, mas, mesmo assim, mesmo neste momento, sente-se quase absorta com a vista das colinas, da igreja e de um grupo disperso de ovelhas, incandescentes, levemente coloridas por uma pálida tonalidade de enxofre, pastando sob um céu que escurece. Detém-se a observar as ovelhas e o céu e depois continua a andar. As vozes murmuram atrás dela; bombardeiros roncam no céu, embora ela olhe à procura dos aviões e não os veja. Passa por um dos trabalhadores da quinta (chama-se John?), um homem robusto, de cabeça pequena, com uma jaqueta cor de batata, ocupado em limpar a vala que corre pelo campo de salgueiros. Ele olha para cima, para ela, inclina a cabeça e olha de novo para baixo, para a água castanha. Enquanto passa por ele a caminho do rio pensa como foi bem sucedido, como é afortunado por estar a limpar uma vala num salgueiral. Ela, pelo contrário, falhou. Não é de modo algum uma escritora; é simplesmente uma excêntrica talentosa. Retalhos de céu brilham nas poças formadas pela chuva da noite anterior. Os seus sapatos afundam-se ligeiramente na terra amolecida. Ela falhou e agora as vozes voltaram, sussurram, indistintas, imediatamente fora do alcance da sua visão, atrás dela, aqui, não, vira-se e elas desapareceram, foram para outro lugar qualquer. As vozes regressaram e a dor de cabeça aproxima-se, tão certa como a chuva, a dor de cabeça que esmagará o que quer que ela seja e ocupará o seu lugar. A dor de cabeça aproxima-se e parece que os bombardeiros apareceram de novo no céu. Chega ao aterro, sobe-o e desce pelo outro lado, para o rio. Está um pescador a montante, muito longe – não reparará nela, pois não? Começa a procurar uma pedra. Trabalha depressa, mas metodicamente, como se obedecesse a uma receita que tem de ser escrupulosamente respeitada para dar bom resultado. Escolhe uma pedra mais ou menos com o tamanho e a forma do crânio de um porco. Enquanto a levanta e a mete à força numa das algibeiras do casaco (a gola de pele faz-lhe cócegas no pescoço), não pode deixar de notar a sua fria consistência gredosa e a sua cor, um castanho-leitoso com manchas verdes. Para junto da beira do rio, que lambe a margem e enche as pequenas irregularidades do lodo com água límpida, que poderia ser uma substância completamente diferente do líquido castanho-amarelado, sarapintado e de aspecto sólido como uma estrada que se estende uniforme de margem a margem. Avança. Não tira os sapatos. A água está fria, mas não ao ponto de ser insuportável. Detém-se, com a água fria até aos joelhos. Pensa em Leonard. Pensa nas mãos dele e no seu rosto, nos sulcos fundos à volta da sua boca. Pensa em Vanessa, nas crianças, em Vita e Ethel: tantos. Falharam todos, não falharam? Sente de súbito uma imensa pena deles. Imagina-se a virar-se, a tirar a pedra da algibeira, a voltar para casa. Provavelmente regressaria a tempo de destruir os bilhetes. Podia continuar a viver, podia fazer essa derradeira gentileza. Parada com a água pelos joelhos, decide não o fazer. As vozes estão ali, a dor de cabeça vem a caminho, e, se ela se entrega outra vez ao cuidado de Leonard e Vanessa, eles não a deixarão partir de novo, pois não? Resolve insistir em que a deixem partir. Avança desajeitadamente (o fundo está lodoso) até a água lhe chegar à cintura. Olha para o lado de cima, para o pescador que tem vestido um casaco vermelho, e não a vê. A superfície amarela do rio (mais amarela do que castanha, vista assim de perto) reflete baçamente o céu. Este é, pois, o último instante de verdadeira percepção, um homem a pescar de casaco vermelho e um céu nublado refletido na água opaca. Quase involuntariamente (ela sente o ato como involuntário), anda ou tropeça para a frente e a pedra puxa-a para baixo. Durante um momento, ainda, isto parece nada, parece outro fracasso, apenas água fria de que pode sair nadando para a margem. Mas depois a corrente enrola-se nela e toma-a com uma força tão vigorosa e inesperada que é como se um homem forte se tivesse erguido do fundo, lhe agarrasse as pernas e as prendesse contra o peito. É como se fosse uma coisa pessoal.

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Foto: Diego Lourenço

É levada rapidamente pela corrente. Parece voar, fantástica figura de braços abertos, cabelos soltos flutuantes, aba do casaco de peles enfunada atrás dela. Flutua pesadamente por entre dardos de granulosa luz castanha. Não vai longe. Os seus pés (os sapatos perderam-se) batem ocasionalmente no fundo e, quando tal acontece, levantam uma lenta nuvem de resíduos, repleta de silhuetas negras de esqueletos de folhas e que permanece quase imóvel na água depois de ela ter desaparecido de vista. Fitas de algas pretas-esverdeadas prendem-se-lhe aos cabelos e às peles do casaco e durante momentos os seus olhos são vendados por uma espessa faixa de ervas, que finalmente se solta e flutua, se enrola e desenrola e volta a enrolar-se.

Acaba por se deter contra uma das estacas da ponte de Southease. A corrente comprime-a, molesta-a, mas ela está firmemente colocada na base da grossa coluna quadrada, com as costas voltadas para o rio e o rosto contra a pedra. Está ali enrolada, com um braço dobrado contra o peito e o outro à tona sobre a elevação da anca. A alguma distância acima dela encontra-se a encrespada superfície luminosa, na qual o céu se reflete instavelmente, branco e carregado de nuvens, atravessado pelas formas recortadas a negro das gralhas. Carros e camionetas passam ruidosamente na ponte. Um rapazinho dos seus três anos, não mais, atravessa a ponte com a mãe, para junto do parapeito, baixa-se e enfia o pau que tem na mão entre as ripas do gradeamento, para que caia na água. A mãe diz-lhe que continue a andar, mas ele insiste em ficar um pouco mais, a ver o pau ser levado pela corrente.

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“Southease River Ouse swing bridge” by Charlesdrakew – Own work. Licensed under Public Domain via Wikimedia Commons

Ali estão, num dia do princípio da segunda guerra mundial: o rapaz e a mãe na ponte, o pau a flutuar na superfície da água e o corpo de Virgínia no fundo do rio, como se ela estivesse a sonhar com a superfície, o pau, o rapaz e a mãe, o céu e as gralhas. Uma camioneta cor de azeitona baça atravessa a ponte, carregada de soldados de uniforme, que acenam ao rapazinho que acabou de atirar o pau ao rio. Ele retribui, acenando também. Pede à mãe que lhe pegue para poder ver melhor os soldados e se tornar mais visível para eles. Tudo isto penetra na ponte, ecoa na sua madeira e na sua pedra e penetra no corpo de Virginia. O seu rosto, comprimido de lado contra a estaca, absorve tudo: a camioneta e os soldados, a mãe e o filho.

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As horas, de Michael Cunningham
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Ed. Gradiva, 2000
226 págs.
http://www.gradiva.pt/

*O texto foi publicado no Escritoras Inglesas com permissão da Editora Gradiva.

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.