Anne: uma releitura de Persuasão, de Jane Austen

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Sinopse:

Anne pertence a uma importante, porém empobrecida, família do interior de Minas Gerais. No passado, foi apaixonada por Fred, um inteligente e ambicioso rapaz de família humilde. Teria se casado com ele, mas foi persuadida por sua família e recuou do compromisso firmado anteriormente. Vários anos se passam até que um novo Fred volta ao lugar onde foi desprezado pela família Elias. Agora, ele é um homem bem sucedido, um veterinário respeitado e de boa situação financeira. “Anne” é uma releitura moderna de Persuasão, de Jane Austen: a história de um amor que precisará vencer as barreiras do orgulho e do ressentimento para ser vivido.

Resenha:

Anne é uma releitura moderna do romance Persuasão, de Jane Austen. O conto foi publicado em seis capítulos de forma semanal no Wattpad entre julho e agosto deste ano, e, desde o dia 22 de setembro, está disponível em e-book na Amazon, em edição revista e com um capítulo extra. É a história de um amor que conseguiu vencer o tempo e o orgulho. Os capítulos contam, ainda, com a trilha sonora da banda inglesa Dire Straits e a playlist pode ser ouvida gratuitamente no Spotify.
Meu amor por Dire Straits surgiu bem antes da admiração que tenho por Jane Austen. Aprendi a gostar das músicas dessa banda com o meu pai, ainda nos meus tempos de criança. Já Jane Austen, conheci através da minha irmã Tamara, que viu o filme Orgulho e Preconceito, de 2005, e disse que eu tinha que assistir porque certamente ia gostar. Bem, ela estava certa. Jane Austen abriu meus horizontes para a literatura clássica inglesa, a qual hoje sou fã irremediável. E foi com a resenha do livro Razão e Sensibilidade que tive a oportunidade de ser colaboradora de um dos melhores sites do Brasil sobre literatura inglesa: o Escritoras Inglesas.

Daí a escrever uma versão de um dos livros mais belos de Austen, Persuasão, foi um longo caminho. Digo isso porque já fui o tipo de leitora que rejeitava qualquer adaptação ou versões dos clássicos da autora, por achar que eram histórias ruins ou que apenas queriam pegar carona no sucesso que a escritora, mesmo depois de 200 anos de falecida, ainda faz. Podem existir histórias assim, mas existem também versões, continuações e inspirações maravilhosas dos seis romances que Jane Austen nos deixou, além de outros trabalhos como Lady Susan e Sanditon, por exemplo. Mesmo que haja milhares de versões, boas ou ruins, os livros de Jane Austen continuarão na estante, intactos, esperando para serem lidos ou relidos. Histórias inspiradas nos livros que amamos podem ser um ótimo caminho para reviver uma boa narrativa com infinitos pontos de vista.
Consciente disso, tive, então, coragem para colocar no papel essa história que há muito tempo eu tinha na cabeça. E Jane Austen me ajudou, emprestando-me seu enredo e seus personagens, para que eu os transportasse para o século XXI, Brasil, interior de Minas Gerais, ou seja, para a minha realidade. Sempre que eu ouvia Your Latest Trick, do Dire Straits, eu pensava que uma história romântica ficaria perfeita com ela de tema. Então resolvi uni-la a uma das histórias mais românticas que eu conheço, Persuasão.

Veja os comentários de quem já leu:

“A história de Persuasão é trazida para o interior do Brasil do século XXI, quando Anne, filha de uma importante família da região que não mede os gastos, se vê obrigada a arrendar sua fazenda para pessoas ligadas a um antigo amor que ela achava ter ficado no passado. Agora que Fred está de volta, Anne não consegue imaginar quando o verá, nem se ele a terá perdoado por um grande erro cometido pela jovem.
Uma releitura leve e deliciosa de um dos maiores clássicos da história da literatura, feito na medida certa pra quem ainda não sabe, mas vai se apaixonar pela obra de Jane Austen.” (Mara Sop)

“Um conto delicado, suave, emocionante e belo. Primeira obra que li da autora e não fiquei, de modo algum, decepcionada. Parabéns!” (Capitu Já Leu)

A autora se valeu de Persuasão (Jane Austen) pra contar uma história cheia de mudanças, perdão, amor que amadurece e se fortalece na dificuldade. Anne, uma moça inteligente e muito ativa é filha de uma família da aristocracia rural do interior de Minas Gerais. Ela tem um romance com Fred, um rapaz muito dedicado e esforçado, estudante de medicina, mas de origem pobre. A vida deles vai mudar no momento em que Anne mandar um pequeno bilhete rejeitando o pedido de noivado de Fred, pois a família da moça a persuadiu a declinar porque não era seria bem visto socialmente. Mas a família de Anne é cheia de problemas financeiros e deseja que ela faça um casamento vantajoso com algum herdeiro rico. Será que a história deles termina aí? Saberemos quando Anne receber a notícia que Fred está voltando depois de anos e ela sabe que numa cidade pequena é difícil evitar reencontrar seu ex- namorado. Isso causa um desconforto. Como será que Fred está? Já lhe esqueceu? Terá um novo amor? Uma história doce, uma autora com muito potencial. Quando será que sai outro livro? *.*” (Cris Rodrigues)

Futuramente, tenho outro conto romântico e inspirado em uma obra de Jane Austen em vista, mas por hora estou apenas fazendo anotações. Será sobre uma moça muito alcoviteira, que é tão preocupada com a vida amorosa dos outros que não percebe que o seu amor está bem ao lado.

Leia o primeiro capítulo de Anne abaixo. A história completa pode ser comprada na Amazon e também está disponível para os assinantes Kindle Unlimited.

Anne

Capítulo 1
Minas Gerais, século XXI.

O Sr. Walter Elias, da fazenda Élio, em Minas Gerais, era um homem que, em momentos de ócio, não se distraía com mais nada além da leitura do livro de recortes de sua família. Ali tinha um porto seguro nos momentos difíceis e situações desagradáveis ocasionadas, em maior parte, por problemas domésticos. Os jornais antigos mostravam todos os grandes homens que tiveram a honra de carregar o sobrenome Elias.
Quando se cansava de ler sobre seus antepassados, lia fatos de sua própria história, sempre muito bem narrados pelos jornalistas em nível regional e até nacional. Eis um trecho da biografia do respeitável senhor publicada pelo jornal Estado de Minas Gerais:

Walter Elias, nascido em 1º de março de 1951, casou-se em 15 de julho de 19-— com Elisabeth, filha de Frederick Stevenson, distinto cavalheiro imigrante da Inglaterra. Ficou viúvo com três filhas ainda bem jovens: Elisabeth, nascida em 1º de abril de 1981; Anne, nascida em 20 de setembro de 1985; e Mariah, nascida em 19 de novembro de 1987.

Orgulhosamente, usando uma caneta de escrita fina e com traços delicados, escreveu, logo após a data de nascimento de Mariah: “casada em 16 de dezembro de 2009, com Carlos Musgrove Filho, herdeiro de Carlos Musgrove, distinto empresário de São Paulo”.

Ninguém podia dizer que o Sr. Walter, conhecido por muitos como Dr. Walter, embora nunca tenha concluído um curso universitário, não era um homem atraente. Aos sessenta e seis anos, era um senhor respeitado, que ainda atraía olhares, inclusive de mulheres mais novas, como bem gostava de observar. É bem verdade que a estima adquirida em sua comunidade se deve, além do sobrenome Elias, à lembrança que muitos ainda guardavam de sua falecida esposa, que era uma flor de candura e sabia ignorar os defeitos do marido.
Sr. Walter tão logo enviuvou, teve a valiosa ajuda de D. Glória, uma grande amiga de sua finada mulher, para o término da criação das filhas. Ela também é uma viúva e de boa família, mas, contrariando todos os mexericos e expectativas da comunidade, os dois não se casaram. Não havia necessidade, tampouco desejo da parte de Sr. Walter. Ele se considerava um bom pai e viveria o resto de sua vida em função das filhas, sobretudo da mais velha, fisicamente semelhante à mãe, mas de temperamento e caráter iguais ao seus. Mariah havia se casado na primeira boa oportunidade que teve, e Anne… Bem, Anne sempre esteve a cargo de D. Glória, sua madrinha de batismo. Embora fosse a imagem e semelhança do pai, ele não tinha paciência para os arroubos de Anne e seu diferente jeito de ser.
No momento, irritava-se facilmente com os pitacos que a filha dava em relação à situação financeira da família.
— A fazenda não produz como antes. Na verdade, não produzimos nada de relevante, não nos automatizamos e gastamos muito dinheiro com frivolidades! – Dizia Anne.
— Elisabeth é uma ótima senhora para a Fazenda Élio. Se os negócios vão mal, a culpa é da economia brasileira, que está em frangalhos! – Defendia o Sr. Walter.
— Querido pai, não podemos culpar a economia pelos gastos frequentes e as festas que vocês dão. Daqui a pouco, não teremos como pagar os salários dos empregados! A melhor saída, como eu já disse mais de uma vez, é arrendar a fazenda. Pelo menos parte dela. O Dr. Gonçalo tem algumas pessoas para nos indicar. Vamos ouvi-lo!
Dr. Walter se enfurecia toda vez que percebia que Anne tinha razão. A serenidade com a qual ela lidava com a situação o fazia quase detestá-la. Certamente não se importava em deixar a fazenda, se virava bem no meio de gente pobre, e se achava independente, pois tinha um emprego. Mas Elisabeth, pobre Elisabeth, o que seria dela, e dele próprio, não podendo mais serem os senhores da Fazenda Élio? Infelizmente não tinham saída, teriam de arrendar a fazenda. Mas seria por pouco tempo, tinha certeza. Seriam férias do campo! Enquanto isso, viveriam em uma casa não muito longe dali, uma residência mais modesta, comparada à sede da fazenda. Muito bem localizada, essa casa ficava de frente para o Paço Municipal e suas belas árvores e mesinhas de jogar xadrez.

***

— Dr. Walter, tenho os arrendatários perfeito para o senhor! – Disse o animado advogado da família, Dr. Gonçalo. – Um militar aposentado e sua esposa. Não têm filhos e desejam a calmaria do interior. Não tendo achado uma propriedade para comprar, estão dispostos a arrendar a Fazenda Élio; a área da casa grande, os estábulos e uma parte do campo onde fica o pomar. A parte agrícola, como o Sr. sabe, será arrendada para a indústria.
— E esse militar por acaso tem dinheiro? – Perguntou Sr. Walter.
— Sim, e muito! Nem quis negociar. É de família abastada, se afastou da Aeronáutica por problemas de visão, pelo o que eu pude entender. – Disse o advogado.
Sr. Walter bufou e debochou, sob o olhar de reprovação de Anne:
— Então um velho cegueta vai ser o senhor da minha fazenda?
— De maneira alguma, Dr. Walter. Ele não é cego, nem velho. Bem, deve ter a idade do senhor, talvez um pouco menos. – Dr. Gonçalo riu e logo se envergonhou com o olhar crítico de Sr. Walter. – Ele saiu da Aeronáutica porque lá não admitem pilotos com problemas de visão que podem se agravar com o tempo. E ele já tinha muitos anos de serviço, pelo que pude apurar. Ademais, o cunhado dele conhece bem a região. É um renomado veterinário, cuidará dos cavalos enquanto estiver aqui. Andrade é o sobrenome dele, mas não me recordo o nome.
Sr. Walter franziu o cenho ao perceber Anne pálida como um fantasma.
— Não conheço ninguém com esse sobrenome. – Disse Sr. Walter.
— Frederick. O nome dele é Frederick. – Respondeu Anne de forma quase inaudível.
— Ah, então vocês o conhecem? Ótimo! Vou dar andamento à papelada e em breve lhe procuro, Dr. Walter, para finalizarmos a transação e assinarmos o contrato.
Sr. Walter acompanhou o advogado até a saída e foi tratar com Elisabeth os detalhes da decoração da casa da cidade, pois vários objetos teriam de ser substituídos ou acrescentados, agora que a família Elias estava de mudança. Anne ficara jogada em sua poltrona favorita, com o pensamento apenas em uma pessoa.
— Em pouco tempo ele estará aqui novamente. Fred estará aqui.

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Tamires de Carvalho

Estudante de Letras (Português/Literaturas), sempre foi apaixonada pelo universo dos livros. Descobriu na Literatura Inglesa uma grande fonte de prazer e inspiração. Também acha estranho falar de si mesma na terceira pessoa. Contato: ts.carvalhosantos@gmail.com