Algumas notas soltas sobre Little Women, de Louisa May Alcott

ATENÇÃO: PODE CONTER SPOILERS

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Esta não será uma resenha no molde “correto”. Serão mais notas soltas, observações, pequenas análises de certos aspectos do romance, algumas informações sobre o livro e a autora e, claro, minhas impressões – inteiramente pessoais e parciais – sobre um clássico que merece ser lido.

Antes de mais nada, vamos às apresentações. Little Women foi escrito em 1868 pela americana Louisa May Alcott. É um clássico tanto da Literatura Estadunidense, quanto da Literatura de Língua Inglesa. Um livro que nunca parou de ser editado. Originalmente, foi publicado como dois livros distintos, com uma sequência chamada Good Wives, lançada em 1869. Estes dois livros ainda são publicados em  volumes separados (como acontece com a tradução brasileira), mas, geralmente, vem em um único tomo contendo Little Women – Volume I e Little Women – Volume II. A partir daqui, quando eu me referir a “Little Women”, seguirei este último modelo de organização.

Em Little Women – Volume I acompanhamos a vida de quatro irmãs – Meg, Jo, Beth e Amy – durante o ano em que seu pai está na guerra. Em Little Women – Volume II, acompanharemos o crescimento dessas irmãs, com suas carreiras e vidas amorosas. Parece pateticamente simples, não? Entretanto, é na vida comum que as maiores complexidades da natureza humana são tratadas.

É um livro de/para/sobre família. Também um livro sobre moral cristã (o que nos tempos relativistas e meio cínicos que vivemos, com certeza não atrairá todos os públicos). E, principalmente, é um livro sobre amadurecimento: o que deixamos para trás na nossa passagem da infância para juventude e para a vida adulta e o que levamos até o fim.

É um dos meus livros favoritos da vida. Foi o primeiro que me fez chorar. E acho que sempre vai ter algo a me dizer, porque ele está tão cheio de verdade, que mexe não só com a mente, mas com a alma também. É um alento, um conforto, uma leitura deliciosa e atemporal.

Alguns fatos e opiniões

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Louisa May Alcott

  • Louisa May Alcott não queria escrever Little Women – o fez até bem contrariada –, mas o editor pediu por um “livro de meninas”. Se ela escrevesse, ele prometeu publicar alguma coisa do pai dela também. Ela aceitou.
  • A vida de Louisa foi bem complicada. Eu até pensei em falar mais sobre isso, mas, ao pesquisar só um pouco, percebi o tamanho da minha ignorância. São muitas complexidades. Quando tiver lido mais, tentarei escrever alguma coisa. Cabe só dizer que tracei alguns paralelos entre a vida dela e a de Charlotte Brontë: uma forte ambição literária; um pai que incentivou sua instrução e com quem ela tinha uma forte conexão, mas ao mesmo tempo a decepcionou muito; a pobreza; uma pesada carga de trabalho e responsabilidades caindo sobre os ombros dela – e de todas as mulheres da família; a perda de uma irmã; um espírito de aflição, cansaço e amargura em parte de sua vida. Na verdade, era uma pessoa que merecia uma boa biografia publicada (e traduzida, por favor!).
  • Little Women foi um dos primeiros livros a falar da Guerra Civil Americana.
  • Há dois romances que sucedem Little Women e Good Wives: Little Men (1871) e Jo’s boys (1886).
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  • No Brasil, a primeira tradução é de 1934, Mulherzinhas, feita por Eduardo Carvalho, pela Companhia Editora Nacional. Esta foi revista e reescrita por Godofredo Rangel em 1944 e saiu pela Biblioteca das Moças. Em 1995, a Editora Musa a republicou (e esta é a edição que eu tenho). Já Boas esposas chegou ao Brasil em 1960, com tradução de Genolino Amado (que eu acho um primor), também pela Biblioteca das Moças; foi reeditado em 1983 (eu tenho este volume).
  • Há 4 versões para cinema e a mais famosa é a de 1994, com o título nacional de Adoráveis Mulheres.
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Filme: Adoráveis Mulheres, 1994.

  • Little Women é um romance de formação (coming-of-a-age novel), assim como Jane Eyre, Agnes Grey e Anne of Green Gables.
  • Pra mim, não faz sentido ler Little Women sem ler Good Wives. Quando eu li Mulherzinhas pela primeira vez, fiquei muito frustrada com o final. Tanto que achei que o livro estava incompleto (ainda mais por ter comprado num sebo). Além disso, gosto mais de Good Wives. Amo Mulherzinhas, e muito. Mas há qualquer coisa em Boas esposas que é ainda melhor e melhor. Seria o tom mais maduro? Seria a liberdade que Louisa se permite em falar mais abertamente dos valores e da fé cristãos? Seria essa identificação tão forte, esse retrato da vida comum de uma família? Enfim… Mas deve ser por isso que ele é lançado nos EUA como volume único.
  • Louisa May Alcott, com certeza, leu Jane Austen. Além de sabermos que ela era uma mulher culta e grande leitora, percebo certas influências. Por exemplo: a cena da marmee chegando para ver Beth doente – e, talvez, moribunda – me lembrou muito Sense and Sensibility, ainda mais porque nos dois casos as mães foram acompanhadas nas carruagens por homens apaixonados por suas filhas e que falaram de seus sentimentos. E a cena hilária da tia Marh ordenando que Meg não se casasse com o Sr. Brooke (esse tal de Cook, Rook…) tem sim um quê de Lady Catherine e Lizzie. Vale a pena prestar atenção nesses detalhes.
  • O poema My Beth é uma das coisas mais tristes e tocantes de toda a Literatura, para mim. Todas as vezes que eu o leio – quando pego o livro para dar uma folheada – é inevitável que meus olhos fiquem marejados. Todas as vezes. Ah, e aqui mais uma vez meus parabéns para Genolino Amado e sua tradução.
  • O humor de Louisa é delicioso. Mesmo quando é usado para fazer uma crítica à sociedade – e aqui, em geral, é a voz de Jo que se faz ouvir – sempre soa como um humor suave, despretensioso. Algo ingênuo, mas não bobo. Algo assim:

” (…) E Demi correu, procurando uma trincheira de defesa nas saias maternas.

Contudo, nem esse refúgio serviu, pois foi entregue ao inimigo com um “Tenha paciência com ele, John”, que ainda mais assustou o reuzinho. Pois, se mamãe o abandonava, isso queria dizer que tinha chegado o dia do Juízo Final”.

Eu sempre me divirto quando leio Little Women, sempre me vem um riso sincero.

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Filme: Adoráveis Mulheres, 1994.

  • Algumas pessoas acham o livro “doce” demais, “moralista” demais ou algo que o valha. Eu não concordo, absolutamente. Se fizesse isso, teria que achar a mesmíssima coisa de Frances Hodgson Burnett e L. M. Montgomery. Louisa conseguiu um encaixe e equilíbrio perfeitos entre prosa e moral.
  • Eu sou apaixonada pelo professor Baher. Sério, aquele personagem é perfeito, é o mocinho perfeito. Pra mim, ele e Jo formam um dos melhores casais literários. E é engraçado pensar que ele na verdade nem existiria! Enquanto trabalhava no segundo volume, Louisa recebia pedidos de fãs para que casasse Jo com Laurie (o que eu acho que nunca daria certo). Ela escreveu no seu diário: “Garotas me escrevem, pedindo que case as ‘pequenas mulheres’, como se casar fosse o único objetivo e fim da vida de uma mulher. Eu não vou casar Jo com Laurie para agradar quem quer que seja.” Parece que ela criou o professor como um meio-termo, um acordo – ou então para irritar as fãs! Ah, Louisa! Se você soubesse

O papel de Father e de Marmee

A mãe (Marmee) e o pai (Father) tem o papel de guias das “pequenas mulheres” no romance. Como são eles que possuem experiência de vida e sabedoria, é deles a missão de ajudar suas filhas a se tornarem adultas. Mas cada um deles faz isso de uma forma diferente.

O pai é uma figura ausente na maior parte do livro, porque ele está na guerra. Esta situação trabalha para fazer do possível retorno dele um marco do futuro – ‘quando papai chegar em casa, então isto e isto deverá ser melhor. Nós temos que mudar, que crescer.’ O desejo de agradar o pai e fazê-lo orgulhoso delas é um mote para as garotas, como um ato de gratidão pelo sacrifício dele.

Já a mãe, em contrapartida, está presente o tempo todo. Ela funciona como a moral nas fábulas: depois de as garotas passarem por alguma situação, marmee aparece com conselhos e conforto. Ela está sempre tentando unir a família e é a única constante – o que não sofre mutação – no romance e na vida das meninas. Quando ela tem que deixar a casa para socorrer o marido ferido, tudo desaba: Beth está a beira da morte. Ela só irá se recuperar na noite em que a mãe chegar, e isso é emblemático.

A relação entre personagens e ambiente

O cenário principal de Little Women – no 1ª volume – é a casa dos March e as cercanias (a casa de Laurie, a casa de tia March, a floresta etc). Nós não vemos o pai na guerra e nem mesmo em Washington: o narrador nunca nos leva lá, porque o que importa nessa história é o lar – o lugar da família. A conexão e a proximidade com a casa (o lugar físico) é proposital, para dar às personagens o sentimento de pertencimento, de raízes, de lealdade com a família. Quando Laurie se zanga com o avô, ele planeja fugir e convida Jo para ir com ele. Jo, a de espírito livre, impulsiva e cheia de energia, se sente tentada. E esse é um aspecto que será desenvolvido, de forma diferente, no volume 2: Jo parece oscilar, procurando um lugar para se encaixar, um lugar onde sua ambição artística, sua vontade de ser “livre” se concretize. Mas ela sempre retorna para o ninho; quando o deixa, é para construir outro ninho, outra casa.

Algumas citações

Suportou aquilo enquanto pôde. Mas quando foi convidado a dar a sua opinião, vibrou de honesta revolta e defendeu a religião com a eloquência que deu sonoridade ao seu inglês mal pronunciado e emprestou uma certa beleza à sua fisionomia tão simples. A luta era dura, pois os sábios argumentavam bem. Mas não se considerou derrotado e manteve varonilmente a sua posição. De qualquer modo, o certo é que enquanto ele falava, o mundo entrava nos eixos para o espírito de Jo e as velhas crenças, que tinham durado tanto tempo, pareciam melhores do que as novas. Deus não era uma força cega e a imortalidade não era uma bonita fábula, porém um fato abençoado.

— Ah, Deste-me tanta esperança e tanta coragem e eu nada tenho para te dar em troca a não ser um coração cheio e duas mãos vazias – exclamou o professor completamente conquistado – Nunca, nunca aprenderei a proceder de acordo com as ocasiões.

Quando ele disse aquilo, ela pôs as suas mãos nas dele, cochichando ternamente:

— Agora não estão vazias. – e parando subitamente, ela beijou o seu Friedrich, debaixo do guarda-chuva.

(…)

Embora tivesse chegado de um modo tão simples, o momento supremo da vida deles dois foi aquele em que (…) Jo guiou para dentro de casa o seu noivo e fechou a porta.

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Filme: Adoráveis Mulheres, 1994.

Ela remava tão bem como fazia muitas outras coisas. E embora empregasse as duas mãos e Laurie apenas uma, os remos batiam na água compassadamente e o barco deslizava com facilidade.

— Como combinamos com os remos, não é? – disse Amy, que não parecia concordar com o silêncio naquela hora.

— Tão bem que é meu desejo que possamos remar sempre no mesmo barco. Você quer, Amy? – disse Laurie ternamente.

— Sim, Laurie. – respondeu bem baixinho.

Sou feliz demais para cuidar do que os outros possam pensar ou dizer a meu respeito.

O amor desarma o receio, e a gratidão pode dominar o orgulho.

Contudo, no íntimo do seu coração, ela achava que política era uma coisa tão complicada como matemática e que a missão dos políticos parecia consistir em dizer desaforos uns aos outros.

O único cavalheirismo digno de se cultivar é o que está sempre pronto a reverenciar os velhos, proteger os fracos e servir as mulheres, sem consideração de classe, de idade ou de cor.

E se é difícil trabalhar sozinha, lembre-se de que eu não a esqueço e você será mais feliz fazendo isso do que escrevendo livros esplêndidos ou vendo tudo que existe no mundo, pois o amor é só o que podemos levar conosco quando partimos e é o que faz tão fácil a partida.

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Pra quem lê em inglês, um ótimo link: https://ebooks.adelaide.edu.au/a/alcott/louisa_may/little_women/contents.html

Ilustrações lindas:
ttp://miss-elinor.tumblr.com/post/38727732438/delaneyjoyce-doctorconquest

Todas as traduções: 
http://traduzindomulherzinhas.blogspot.com.br/

 

 

Rebeca Lima Teixeira

Soteropolitana. Bacharel em Língua Inglesa. Cristã. Caseira e reservada, amo dias de chuva e de vento, solidão e silêncio, plantas e passarinhos, panetone e chocotone. Apaixonada por História e Literatura, especialmente a Inglesa - meus livros favoritos falam por mim. http://www.skoob.com.br/usuario/621503-rebeca Contato: rebecaausten@gmail.com

  • Enza Said

    Preciso ler este livro 🙁

    • Precisa mesmo! E pra você que lê/gosta de ler em inglês, não vai ser difícil achar: tem muitas edições.
      Queria tanto que tivesse uma boa, completa e nova edição em português… Uma edição da Zahar! Ia ser perfeito.