Agora está acabado (Emily Brontë)

destacada

Ó Deus do céu! Está acabado agora!
Acabado o sonho horrível, o sonho de terror,
O coração partido, as áridas tristezas,
Os fantasmas da noite, a aurora plena,
E as dilacerações desse mal estranho.

A queimadura sem fim das lágrimas teimosas,
A queixa que suspira e lamenta cada lágrima,
E desborda, e se arranca à sombria mansão,
A vida parecia fugir dessas portas abertas,

Mas renascia sempre do mesmo desespero.

A noite branca e a garganta cerrada de angústia,
O ranger de dentes e os olhos do medo,
E a eterna agonia dessa longa espera,
Quando, no escuro céu dos destinos implacáveis,
Não se via brilhar mais nenhuma chama de esperança;

As impacientes cóleras,
Os inúteis esforços para dissipar
Os sonhos que nunca deviam ter nascido!
E a alma esmagada pelos pensamentos,
Tonta quase a desmaiar sob a tortura,
Até o dia em que o corpo se recusou a sofrer mais,

Agora está acabado,
Sou livre.

O alto vento do mar me enobrece e me acaricia,
O vento grande vagabundo das planícies ondulantes,
Que eu julgava perdido e sem esperança de volta.

Eu te bendigo, ó mar faiscante,
E tu esplendor arqueado,
E tu, Universo, tu em que repousa minha alma!
Sede benditos… E minha voz desfalece.
Não é mais a tristeza que me cinge a garganta,
Mas sobre a palidez das faces sinto uma fria magoa
Escorrer como a chuva que desce ao longo da planície.

Durante muito tempo esse líquido molhou a minha prisão,
Gota a gota, escorreu sobre a pedra úmida e cinza.

As lágrimas nos perseguiam até em sonhos,
A noite como o dia me enchia de terror.

E eu chorava também, quando a neve de inverno
Através das grades rodava na tempestade,
Mas então minha alegria se tornava mais tranquila,
Pois tinha medo de tudo, nessa morte das coisas.

O tempo mais amargo, o mais terrível
era quando o verão brilhava no seu esplendor,
E lançava sobre as paredes um clarão esverdeado
que falava de planícies e ridentes bosques.

Muitas vezes sentei-me até mesmo no chão gelado,
Contemplando no céu um efêmero clarão.
E minha alma sem ver as trevas reinantes,
Lentamente partia para as terras serenas,
Para a abóbada divina onde o céu triunfava,
Para o azul puro com o ouro das nuvens,
Para o teto paternal da minha antiga mansão,
Igual,
E, no entanto tão velha aos olhos da memória!

Oh! Ainda agora
Eu as vejo voltar com enorme terror,
Estas paixões, cuja onda subia como o mar,
Quando, cabeça baixa, sobre os joelhos,
Ásperamente lutava para domar os meus soluços.

Precipitava-me sobre a pedra com raiva,
E gritava arrancando meus cabelos emaranhados;
Quando a rajada tinha levado sua asa para mais longe,
Eu permanecia no chão muda e sem esperança.

Às vezes uma oração, ou às vezes uma blasfêmia,
Sacudia num estremecimento o deserto da minha língua.
Mas a palavra espirava sem despertar eco
E morria no seio que vira o seu nascimento.

Já então o dia agonizava nas alturas
E a noite estancava seus últimos clarões,
Minha desgraça emprestava à febre adormecida
A estranha forma e o espectro de um sonho,
E terríveis visões me forçaram a conhecer
Os imensos desertos da dor humana.

Mas agora está bem acabado;
Para que voltar a mesma vereda,
Meditar e chorar sobre sentimentos mortos?
Liberta-te dos ferros e repudia as correntes,
É preciso viver, amar e sorrir de novo!

Os anos devastados, a mocidade perdida,
Sepultados para sempre no escuro do cárcere,
A dor que rói, as lágrimas sem esperança,
Deixa-as para sempre no abismo do esquecimento.

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O Vento da Noite
Livraria José Olímpio Editora, 1944
Tradução: Lúcio Cardoso

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.