A Londres de Charlotte Brontë e porque ela não era uma fã da cidade

Charlotte Brontë by George Richmond. Chalk, 1850. (c) National Portrait Gallery

Charlotte Brontë by George Richmond. Chalk, 1850. (c) National Portrait Gallery

A autora nascida em Yorkshire, Charlotte Brontë, tem poucas ligações com Londres.

Diferentemente de Agatha Christie ou Beatrix Potter, que reclamamos como um tipo de londrinas, Charlotte e suas irmãs permanecem fora de alcance.

E, ainda assim, as Brontës visitaram Londres. Charlotte fez cinco visitas separadas à capital. É certo dizer que ela não compartilhava nosso amor pela cidade, preferindo o campo selvagem de Yorkshire às restrições da sociedade londrina.

Mas fãs de Brontë ainda podem considerar alguns lugares restantes para a peregrinação de uma Brontë. E a cidade certamente deixa a sua marca em nossa heroína.

A primeira visita de Charlotte Brontë a Londres foi em julho de 1848. Juntamente com sua irmã Anne, Charlotte foi conhecer o editor George Smith da Editora Smith Elder & Co para desmentir rumores de que os autores Bell (os pseudônimos que as irmãs utilizavam) eram, de fato, uma só pessoa.

Elas viajaram à noite de trem, chegando na Estação Euston bem cedo pela manhã. Euston teria sido a porta de entrada de Charlotte para Londres; ela passava pela Ferrovia Vitoriana sempre que chegava na capital e toda vez escapava para a quietude de Haworth.

É interessante notar que a primeira banca de livros WH Smith em uma estação abrirunaquele mesmo ano – Novembro de 1848 – talvez Charlotte tenha folheado alguns livros que estavam à venda quando ela passou por lá.

O famoso encontro entre as duas irmãs e seu editor George Smith aconteceu no n. 65 de Cornhill, onde funciona agora o Banco Comercial Shanghai.

O jovem editor ficou, presumidamente, espantado em ver duas jovens diligentes em vestimentas provincianas. Ele pensara até então que um homem escrevera Jane Eyre.

65 Cornhill, London. Today it's a bank; on 8 July 1848, the Bronte sisters surprised the publisher, George Smith, revealing themselves to be women. Image from Google Maps.

65 Cornhill, London. Today it’s a bank; on 8 July 1848, the Bronte sisters surprised the publisher, George Smith, revealing themselves to be women. Image from Google Maps.

George descreve as irmãs como “duas damas vestidas de um modo um tanto curioso, de pele pálida e aparência ansiosa”. De Charlotte, Georg disse que “pode parecer estranho que a posse de um gênio não a colocou acima da fraqueza de uma ansiedade excessiva em sua aparência pessoal, mas acredito que ela devia ter dado todo o seu gênio e sua fama para ter sido bonita”.

Aquela noite, George levou as irmãs para ver a II Barbiere de Rossini na Ópera Royal Italian, que agora é a Royal Opera House em Covent Garden. As irmãs devem ter aparentado estar totalmente deslocadas, vestindo-se com trajes simples, com vestidos de gola alta de se usar durante o dia enquanto que os frequentadores da ópera da sociedade londrina andavam para todo lado em suas sedas, joias e tafetás.

Registros também mostram que Charlotte e Anne visitaram St. Stephen’s Walbrook no dia seguinte, esperando ouvir o famoso autor e clérigo Dr. George Clory pregar. Na verdade, Croly estava ausente naquele domingo. Memoriais para o clérigo permanecem na bela igreja de Wren até hoje.

Depois da morte de seu irmão e suas irmãs, Charlotte visitou Londres mais quatro vezes. No verão de 1850, ela viu muitos pontos turísticos de Londres, vendo um novo hipopótamo no Jardim Zoológico, o primeiro na Europa desde os tempos romanos; observando o Duque de Wellington na Capela Real; e, no geral, sendo apresentada as melhores partes da cidade por seu aventureiro jovem editor.

Charlotte também visitou, em 1851, a Grande Exibição, não só uma, mas cinco vezes na companhia do Dr. David Brewster, um eminente cientista e inventor, amigo de George Smith. Ela escreveu ao pai sobre a viagem: “É um lugar maravilhoso… vasto, diferente, novo e impossível de descrever. Sua grandeza não consiste em uma única coisa, mas na única junção de tudo”.

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The Brontës encontram Thackeray no escritório de Smith & Elder: um de oito painéis de porta de madeira, em 3 Cornhill, London. Foto via kateshrewsday.com

Através de George e de jantares oferecidos pela mãe dele, Charlotte foi apresentada a várias figuras da sociedade literária de Londres. A diminuta Charlotte foi provocada por um enorme William Makepeace Trackeray quando eles se conheceram em 1850. Ele insistiu em chamá-la de Jane Eyre em vários eventos sociais e, de todo modo, geralmente fazia a nossa heroína se sentir bem inconfortável.

Há um relato fantástico de um desses eventos escritos por Anne. A filha de Trackeray teria sido uma pequena jovem na época da visita de Charlotte.

“Dois cavalheiros entram”, relata Anne, “escoltando uma pequena, delicada e séria dama, com cabelo bem ajeitado e um olhar firme. Ela pode estar um pouco acima dos trinta; está trajando um vestidinho barége verde musgo. Ela entra com luvas, em silêncio, seriamente; nossos corações estão batendo com grande excitação”.

A deslumbrante noite estava esperando falhar em se materializar “Foi uma noite sombria e silenciosa’, Anne lembra. “Todos esperavam por uma confabulação brilhante que nunca realmente começou”. Uma das amigas de Trackeray, Mrs Brookfield, perguntou: “Gosta de Londres, Miss Brontë?” Houve um grande silêncio. Vagarosamente, a escritora respondeu: “Sim e não”.

Estranho.

Em sua quinta e última visita a Londres, em janeiro de 1853, Brontë deliberadamente evitou paisagens “normais”. Inspirada por sua amiga, Mrs Gaskell, cuja escrita apresentava mais da “vida real” que os romances da própria Charlotte, ela visitou o Foundling Hospital para crianças abandonadas ou órfãs; a Prisão Newgate; Hospital Psiquiátrico Bethlehem (ou Bedlam); e o Banco da Inglaterra.

Charlotte ofendeu seu glamoroso editor um tanto e a sua mãe ao enviá-los seu último romance, Villete. A atmosfera na casa deles em Bayswater, onde ela estava se hospedando, ficou decididamente mais fria por isso em sua última visita.

Mais tarde, George escreveu para Charlotte para anunciar que tinha se casado com uma rica herdeira. Charlotte enviou uma curta resposta anunciando seu noivado com o pupilo de seu pai, Arthur Bell Nicholls. Nove meses depois de casada, e grávida de seu primeiro filho, Charlotte faleceu. Ela tinha 38 anos.

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Fonte: https://londonist.com/

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com