A Intrusa de Júlia Lopes de Almeida: um clássico nacional à moda inglesa.

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Júlia Lopes de Almeida é uma escritora brasileira e abolicionista nascida em 1862. Autora de vários livros, a carioca também compôs o rol dos idealizadores da Academia Brasileira de Letras e destacou-se no âmbito literário com seus romances e contos juntamente com o marido, também escritor.

Neste ano, a Editora Pedrazul trouxe para o seu rico catálogo um dos romances mais famosos de Júlia: A Intrusa, que conquista o amante de clássicos ingleses com suas inúmeras referências à literatura da terra da rainha.

 A obra narra a chegada de uma governanta à casa do advogado Argemiro e como ela afeta a vida em sua residência. Ele é um advogado que reside no Rio de Janeiro, capital do Brasil durante a virada do século, logo após a instauração da república no país. Argemiro perdeu a esposa cedo e jurou, no leito de morte da mulher, que se manteria fiel à amada e não tornaria a se casar.

Anos passam sem que Argemiro se interesse ou tenha um contato maior com qualquer mulher, porém, quando chega a hora da filha crescida começar a se portar como uma moça e sua casa fica de ponta cabeça devido às manias de um empregado folgado, o advogado resolve contratar uma governanta para educar a filha e colocar seu lar em ordem. No entanto, ela seria contratada com uma condição: que nunca se encontrasse com o seu patrão.

Neste contexto, surge, então, a misteriosa Alice Galba. A jovem aceita o emprego, estranhamente, sem pestanejar após uma entrevista com Argemiro onde comparece vestindo um véu que lhe cobre a face, impedindo o patrão de vê-la.

Ele desconfia de que a moça só poderia ser bem pobre e necessitada para aceitar um emprego sob tais condições, mas, com o passar do tempo, Alice demonstra ter qualidades que uma moça de classe baixa não poderia ter. Além de ler em outros idiomas, as lições passadas à sua filha Glória são ricas e profundas e Argemiro começa a perceber uma mudança de comportamento da filha, mas não só isso: seu lar está diferente, o relaxo e descuido do empregado Feliciano saem de cena e os cuidados graciosos de Alice começam a ser percebidos pelo patrão em cada cantinho de sua residência. Assim, ela começa a conquistá-lo aos poucos, sem, contudo, jamais ter sido vista.

É extraordinário. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranquilo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas a sinto; sua alma de moça enche estas salas vazias de juventude e de alegria.

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Assim, a fama dos cuidados e talentos de Alice começa a correr no círculo social de Argemiro, entre seus amigos, padre Assunção, a interesseira Senhora Pedrosa e entre os sogros. Os primeiros brincam com a possibilidade do colega acabar se apaixonando, o religioso apoia a governanta, a Senhora Pedrosa fica indignada com o escândalo e as possibilidades cada vez mais remotas de conseguir uma união vantajosa entre a filha e o advogado, já os últimos… a sogra é a mais incomodada com a situação.

Nunca a vi, mas a conheço, adivinhei-a; abstraí da personalidade. Ela é o meu conforto; a minha segurança, a minha felicidade.

A sogra rechonchuda não consegue admitir a ideia de outra mulher assumindo o comando da casa cuja senhora tinha sido sua filha e que devia permanecer viva no coração de Argemiro e, por isso, começa a tramar várias maquinações para descobrir mais a respeito de Alice e se livrar da jovem e misteriosa governanta, que parece querer tomar o lugar da santa e amada filha além de estar certa de que a moça está a esconder algum segredo sombrio de seu passado… Será que ela consegue desvendar o mistério no qual Alice está envolvida antes que Argemiro de fato se apaixone pela governanta e quebre o juramento feito à falecida filha?

A Intrusa é um romance leve e divertido que se assemelha aos nossos romances ingleses favoritos no sentido de retratar a sociedade do período em que foi escrito sem poupar algumas críticas sutis a figuras hipócritas e extravagantes presentes na época, personificadas na Senhora Pedrosa e na Baronesa, sogra de Argemiro. É um livro curto e gostoso de ler, os personagens, carismáticos e bem brasileiros, proporcionam certa identificação com o leitor e fazem com que a leitura seja bastante agradável.

O estilo de Júlia, nada prolixo, ao se afastar das descrições intermináveis características de alguns autores do gênero Romântico, aproxima-se de nós leitores contemporâneos e facilita a leitura. A Intrusa é um clássico surpreendente, delicado e encantador. É uma pena que Júlia Lopes de Almeida não ocupe uma posição de mais destaque dentro da nossa literatura. Resta esperar que a Pedrazul nos presenteie com mais obras da escritora, que se mostrou tão habilidosa com as palavras quanto as escritoras inglesas que tanto estimamos, publicadas pela editora.

Júlia Lopes traz as características que mais amamos nos romances ingleses e une ao que o nosso Brasil tem de melhor e, por isso, seu romance é um prato cheio para quem é afeiçoado à literatura inglesa e quer dar uma chance aos clássicos nacionais, mas tem receio. A Intrusa é adorável; é aquele tipo de livro que não se quer terminar e, ainda assim, não vê a hora de descobrir o desfecho, aquele livro que, quando é terminada a sua leitura, permanece conosco por muitos e muitos dias… o melhor tipo de livro.

[…] ela para mim não é uma mulher, mas uma alma. Não a vejo, não lhe toco, a sua imagem material é para mim tão indiferente como um pedaço de pau ou uma pedra. Para mim, basta-me a sua representação, neste aroma, peculiar dela e que paira sutilmente por toda a minha casa; nesta ordem, que me facilita a vida, e no gosto com que ela embeleza tudo em que toca e em que pousa a vista. É uma educada. Parece-me que ela deve ter estudado à sombra de castanheiros ingleses, entre campos de tulipas e jacintos, tão diversa ela me parece ser das outras mulheres.

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Onde comprar:

Pedrazul

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Enza, adorei a resenha! E esse livro parece ser tão bom! Por que essa autora passou tanto tempo esquecida? Eu mesma nunca tinha ouvido sequer falar dela, nem mesmo uma mençãozinha que seja perdida em algum livro de escola! Estranho isso…

    A Pedrazul poderia investir nisso também, procurar autores brasileiros esquecidos. Aliás, um livro que eu gostaria muito de ler: “A sucessora”, de Carolina Nabuco. Dizem que a Daphne Du Maurier plagiou essa obra com o “Rebecca” (e, de fato, as histórias são muito parecidas). Tenho muita vontade de ler, pra poder comparar os estilos.

    Beijos!

    • Enza Said

      Você tem as melhores ideias, Rebeca! Seria esta que mencionou uma obra objeto de uma nova campanha para publicação? Parece bem interessante para mim e espero que para a Pedrazul também!

      • O único problema é que ainda não está em domínio público (Carolina morreu na década de 80). Mas como a última edição é de 1985, acho que não sairia tão caro comprar os direitos autorais…

        Vamos torcer!

  • Luciana Campelo

    Também nunca tinha ouvido falar dela, mas fiquei bem curiosa e amei a resenha.

    • Enza Said

      Fico feliz por ter gostado, Luciana. Curioso… Também não me recordo de professor algum mencionando uma escritora tão importante na construção da identidade literária brasileira. Beijos

  • Leila Maciel

    Nunca ouvi falar dessa autora, mas fiquei interessada na leitura.

    Espero que a editora traga mais autoras assim. Bjs

    • Enza Said

      Leila, a leitura é deliciosa. Também espero que a tragam mais livros assim para nossas estantes, não esperava que a obra fosse tão boa e agora estou apaixonada! Beijos