A Inquilina de Wildfell Hall

 

“Não importa. Não há nada como enxergar o coração de uma pessoa através de seus olhos, e aprender mais sobre a altura, a largura e profundidade de sua alma em uma hora, o que levaria uma vida inteira para descobrir, se ele ou ela não quisesse revelar, ou se você não tiver discernimento para entender.” 

Comecei a ler esse livro logo após terminar a biografia dos Brontë de Juliet Barker – de que vou falar por aqui em alguns dias – e devo confessar que tinha muitas expectativas para ele. A primeira coisa que tenho de dizer, portanto, é que A Inquilina de Wildfell Hall fez jus a tudo o que eu esperava dele.

O segundo romance de Anne Brontë (e agora tenho de ir atrás de Agnes Grey para ler também…) já começa de maneira atípica para quem está acostumado a ler autoras do século XVIII e XIX: a história é narrada do ponto de vista não da heroína, mas do protagonista masculino, Gilbert Markham.

Comparado aos heróis criados por suas irmãs, o vingativo Heathcliff e irascível Rochester, Gilbert Markham pode parecer quase apagado. Mas é exatamente sua moderação que o faz tão atraente: Gilbert é simpático e charmoso, dado a flertes, mas capaz de seriedade e constância quando necessário.

Gilbert conhece e se encanta pela nova vizinha, a jovem viúva Mrs. Graham, moradora do dilapidada Wildfell Hall. Pouco a pouco, ele vai vencendo a natural reserva da mulher, fazendo amizade com o filho pequeno dela e desvendando o mistério que a cerca.

A história avança rapidamente até o ponto em que Gilbert confronta Helen Graham com seus sentimentos – em especial os ciúmes provocados pelo disse-me-disse maldoso de outros vizinhos, envolvendo o dono de Wildfell Hall, o senhor Lawrence. Ao entregar seu diário para Gilbert, Helen vem à frente para contar sua história.

A coragem que Helen demonstra ao abandonar o marido alcóolatra e abusivo é, ainda hoje, exceção, e não regra. Que ela o faça numa época em que se vivia principalmente de aparências – e deixando para trás uma vida de luxo para se sustentar sozinha como artista, apenas reforça essa impressão.

À época em que foi publicado, o romance causou escândalo: Anne não se furtou a escrever com todas as letras sobre vícios e hipocrisia, sobre os males do álcool e a vulnerabilidade da mulher numa sociedade que a via praticamente como posse e propriedade do homem – pai ou marido. Não à toa se reputa a obra como um romance feminista pioneiro.

Não que ela seja toda iconoclasta – não se pode esquecer que Anne era, afinal, filha de um pároco. Religião e fé são questões importantes dentro da história e influenciam fortemente nos princípios de nossa heroína. É curioso: a inflexibilidade moral resultante da fé de Anne não a torna uma protagonista impalatável (ainda que assim Huntingdon assim a enxergue): ela não é perfeita e a fortitude que encontra em si mesma é necessária à sua sobrevivência.

Há quem critique a escolha de Anne em contar a história através de cartas e diários, o que distanciaria o leitor dos fatos. Sinceramente, não acho que isso seja um problema: concordo que se a história fosse narrada de forma direta, teria ainda mais força, mas o formato epistolar não esvazia a importância do que Anne Brontë tinha a dizer. Especialmente quando consideramos que A Inquilina de Wildfell Hall é um conto inspirado em fatos reais.

É razoável identificar a coragem de Helen, sua descida ao inferno por causa do marido, e sua capacidade de se reerguer como inspirada na história de Mrs. Collins, paroquiana que Anne conheceu e frequentava sua casa. Mrs. Collins chegou a pedir conselhos a Patrick Brontë, que demonstrou estar a frente do seu tempo ao aconselhá-la deixar o marido.

Mais ainda que Helen, Huntingdon, o marido alcóolatra da heroína é obviamente um triste tributo ao irmão de Anne, Branwell Brontë. O discurso feito por Helen sobre a diferença como são educados meninos e meninas é uma clara alusão à forma como Branwell cresceu e terminou por desperdiçar seus extraordinários talentos no álcool e drogas.

“É muito bom falar sobre a nobre resistência e provas de virtude, porém a cada cinquenta – ou quinhentos – homens que se cederam à tentação, mostre-me apenas um que teve a virtude de resistir. E como eu deveria tomar como certo que meu filho será um em mil, ao invés de me preparar para o pior e supor que ele será como o resto da humanidade, a não ser que eu tente evitar isso?”

Anne pode não ter a intensidade de Emily, ou o rigor intelectual de Charlotte, mas que seja ela constantemente esquecida ao se tratar das brilhantes irmãs Brontë é uma grande injustiça. A Inquilina de Wildfell Hall é um livro que merecia ser mais conhecido – uma demonstração de força e coragem à frente de seu tempo.

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Inquilina de Wildfell Hall
Autor: Anne Brontë
Tradução: Michelle Gimenes
Editora: Pedrazul
Ano: 2015

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Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com

  • Leila Maciel

    Ah, eu estou perdendo muita coisa por não ter lido esse livro ainda. Gosto muito de histórias que falam sobre a luta das mulheres. Pena que o preço…mas espero mesmo conseguir comprar. A editora realmente está caprichando no catálogo.

  • Lauren Harris

    Infelizmente comprei a edição da Landmark e não recomendo, mas pretendo comprar da Pedrazul. De qualquer maneira, o livro é maravilhoso, muito bem escrito! Adoro histórias pautadas em mulheres que se superam e encontram seu lugar no mundo e sua felicidade.