A Incrível Vida da Autora de Cranford, Elizabeth Gaskell

Drawing of Elizabeth Gaskell Image Don McPhee

Desenho de Gaskell. Imagem: Don McPhee

À primeira vista, ela era uma esposa e mãe vitoriana normal, uma deusa doméstica do século XIX. A pista estava no nome que ela utilizava em seus livros… não Elizabeth Gaskell, mas Mrs Gaskell. Isso a diferenciava de outras romancistas de seu tempo como Jane Austen e George Eliot, que eram solteironas sem filhos.

E era verdade. Casada com um pastor, criando quatro crianças, mantendo o lar aquecido e confortável, ocupando-se com caridade, a autora de Cranford era a personificação da antiga feminilidade.

Do conforto da bênção de se estar casada, ela lançava seu olhar sagaz sobre o mundo, sobre suas peculiaridades e seus personagens, especialmente sobre aquelas almas que, diferentemente dela, não tinham maridos.

Ela criou a cidade de Cranford baseada em Knutsford em Cheshire, onde ela passou os anos principais de sua infância e para onde frequentemente retornava como adulta e que foi levada à TV pela BBC1 com Judi Dench e Dame Eileen Atkins.

Todas as mulheres de Cranford são solteiras e suas fofocas, seus esnobismos, suas preocupações são expostas a risadas, mas não à ridicularização. Mrs Gaskell era uma pessoa satírica, mas uma gentil.

Ainda assim se isso dá à autora uma imagem confortável, seria uma ilusão. A bênção familiar esconde terríveis demônios. À segunda vista, sua vida era repleta de tragédias. Ela escrevia para esquecer.

Ela nasceu como Elizabeth Stevenson em 1810 em Chelsea, filha de um homem excêntrico e estudioso que trabalhava para o Tesouro em Whitehall. Ela era a oitava filha em 13 anos de sua mãe de 40 anos de idade, seis deles haviam morrido. Um ano depois que Elizabeth nasceu, a sua pobre mãe morreu devido à exaustão.

A criança, órfã de mãe, foi enviada para morar com Tia Lumb, a irmã de sua mãe, na rural Cheshire. Lá ela cresceu alegremente sob os cuidados amáveis das mulheres que, mais tarde, chamou de “minhas mais-do-que-mães”. Havia primos com quem brincar e parentes para mimá-la.

A criança inquisitiva observou a vida na cidade de interior ao seu redor. Havia, ela lembrava depois, “11 viúvas respeitáveis que cuidavam da casa, além de inúmeras solteironas”.

Naquela comunidade unida, ela tinha o modelo para Cranford.

Havia duas manchas em seu panorama. Apesar de relacionamentos agradáveis, ela foi ferida pela rejeição de seu pai e ficou solitária. Quando ele se casou novamente, ele não a chamou por anos… e quando o fez, sua madrasta a resignava. Ficar com a família em Londres quando ela tinha nove anos acabou em lágrimas. A atenção do casal residia nas duas novas crianças do casamento. O único amigo de Elizabeth em Londres era o seu irmão – o outro sobrevivente da descendência de sua mãe – mas quando ela fez doze anos, ele foi para a Marinha e ela ficou sozinha de novo.

O internato foi a sua salvação. Surpreendentemente para uma garota de sua geração, ela tinha uma boa educação e foi encorajada a ler muito e a escrever. Ela amava visitar e escrever sobre lugares históricos. Foi o início da sua paixão por coletar histórias.

Cartas transmitidas dela para sua família e amigos, exigindo conversinha, pressionando por “mais detalhes, mais detalhes” e vislumbres mais apimentados das pessoas e dos eventos que caracterizariam sua escrita futura. Ela fazia observações e também diários.

Então, quando ela estava começando a colocar sua vida nos trilhos, ela foi atingida por dois desastres. Em 1828, seu irmão, John, perdeu-se no Mar. Seis meses depois, seu pai morreu também, de um ataque cardíaco. Ela tinha apenas 18 anos.

Sem laços firmes, Elizabeth se sentiu incapaz de se estabelecer. Ela saiu dos cuidados de sua tia Lumb para ficar com parentes distantes em Newcastle; ela viajou para Edimburgo, e então, de volta a Londres, terminando, frequentemente, em Knutsford.

Ela ansiava por conhecer homens nos bailes londrinos. Houve um em Park Lane, disseram a ela para a sua alegria, que tinha um “lugar satisfatório para flertar na varanda”.

Mas o que ela, realmente, ansiava era um casamento… e, logo, ela conheceu seu homem.

O reverendo William Gaskell era um pretendente incomum para essa garota inconstante. Ele era erudito e austero, um amante dos clássicos como o pai dela. Alguns pensavam que ele era seco e muito preso às regras, mas não Elizabeth. Ele era cinco anos mais velho que ela, alto e magro e muito atraente. Ele era ministro da Unitarian Church, uma denominação protestante na qual ela havia crescido. Era um grupo não-conformista, intelectualmente guiados, com uma fé que enfatizava a salvação individual com uma forte consciência social.

O casamento com Gaskell levantou os ânimos de Elizabeth… apenas para derrubá-los novamente quando ela deu a luz à uma menina natimorta. Essa criança sem nome nunca a deixou, como pode-se observar em seu soneto de partir o coração:

“A ti eu não esqueci, minha primogênita

Tu, cujos olhos nunca se abriram para os meus olhos ansiosos.”

Ela logo ficou grávida de novo, porém, e carregou uma filha saudável, Marianne. Mas a experiência prévia havia lhe assustado e então começou a escrever um diário sobre a vida de sua nova filha no caso de ela ou da criança morrer. Assim ela começou sua vida como escritora.

Mais tarde, a segunda garota nasceu, Meta. Então uma terceira criança, um garoto que morreu antes do parto também foi registrado. Tia Lumb morreu também. Em seu luto por toda essa perda, Elizabeth escreveu mais histórias, cheias de tragédias, como sua própria vida.

Outra menininha, Florence, acalmou a dor. Um ano depois, deu à luz a um filho que nomeou de William, em homenagem ao pai. Sua vida como mãe era ocupada, mas ela era feliz. Então, em um feriado em Gales, William morreu em virtude da Febre Escarlate. Ele tinha apenas nove meses de idade.

Elizabeth ficou perturbada e de cama. Seu marido, desesperado para distraí-la, encorajou-a a começar a escrever um projeto maior do que qualquer que ela tinha feito antes… escrever um romance.

Três anos depois, seu primeiro livro, Mary Barton, foi publicado. Era uma simples história de amor situada na periferia de Manchester. Ela escreveu no prefácio: “a história foi criada e o primeiro volume escrito quando eu fui obrigada a me deitar constantemente no sofá, onde eu me refugiei em sua criação para excluir a memória de cenas dolorosas”. A autora de dez livros e dezenas de histórias curtas, além de artigos de revista estava no caminho…, mas a que custo?

Elizabeth, agora, havia se tornado parte de vários círculos sociais. Havia seus amigos da Unitarian Church – informados, espertos e preocupados. Havia sua irmandade de mulheres pensantes, incluindo Florence Nightingale e Charlotte Brontë. Mas foram os círculos literários para os quais ela era convidada que deram a ela sua maior alegria e nos quais ela se sentia mais em casa.

(Apesar de tudo, ela pensou ser mais sábio não colocar seu nome em Mary Barton. Ainda se desconfiava de mulheres escritoras. Mas seu segredo logo foi descoberto quando ela foi a Londres e celebraram seu talento como nova escritora).

Charles Dickens, cujo romance David Copperfield acabara de ser publicado, convidou-a para jantar. Esse era o início de uma longa colaboração literária e de uma longa amizade. Ele queria qualquer romance que ela pudesse escrever para transformar em série a ser publicada na Household Words, uma revista literária a qual ele estava lançando.

Cranford foi publicada desta forma, vindo à vida em seis episódios, antes de ser compilada em livro – como a maioria de seus romances na revista de Dickens ou em outras.

Elizabeth frequentemente trabalhava ao comando dele e ele pedia novas histórias, chamando-a de “minha querida Scheherazade”, comparando-a à lendária contadora de histórias d’As Mil e Uma Noites.

Ela nunca tinha poucas histórias para contar… todas as fofocas e inteligência que ela reuniu ao longo dos anos encontraram um lar. Dickens admirava a sua escrita, mas ele não podia evitar ajustar suas palavras. Eles discutiam frequentemente, mas também podiam flertar. Sua amizade, entretanto, foi além dos limites da Convenção.

As Convenções eram importantes para Elizabeth. Ela nunca se esqueceu de que era Mrs Gaskell, mas era uma esposa incomum para os tempos Vitorianos e seu casamento era um não convencional. Tanto Elizabeth quanto William levavam vidas agitadas. Ele trabalhava muito e estava, frequentemente, fora de casa enquanto ela equilibrava a maternidade com a escrita, viagens e sua vida social. Havia seu trabalho com caridade também… visitar os pobres e pegar casos de crianças que sofriam abusos. Elizabeth também iria se envolver com a vida de outras pessoas, aconselhando Charlotte Brontë a se casar ou não com um homem que ela não amava.

Seu sucesso literário pagava bem. Ela recebeu 200 libras por Mary Barton e daí em diante o pagamento por seus livros subiram rapidamente. Os Gaskell se mudaram para uma casa maior em Manchester e contrataram empregados e uma pessoa para cuidar das meninas. Eles passavam feriados na França e na Itália.

Contudo, o casal estava levando uma vida cada vez mais separada. Ele odiava Londres e ela amava. Quando ela estava lá, ela estava no meio de amigos e outros contatos. “Eu tive tantas visitas a fazer”, ela escreveu à filha, Marianne. O Norte, apesar de ser inspiração para vários de seus trabalhos, estava começando a entediá-la. As festas de Manchester eram “grandes, vulgares e espalhafatosas”.

Pode parecer que ela e William estavam se distanciando. Mas amor e respeito nunca morreram. Ele era sempre o crítico que ela procurava primeiro. Ela se submetia à sua edição, não a de Dickens. Houve apenas um momento em sua cabeça que pode ter afetado e feito seu coração tremer. Em uma viagem com suas filhas, eles visitaram Roma e ela ficou encantada com a voz e os modos suaves de um americano de 30 anos, Charles Norton.

Ele era quase VINTE anos mais novo do que ela. Ele a lisonjeou com sua devoção e a impressionou com conhecimento. Os sentimentos de Charles por ela eram genuínos. Ela era uma mulher espontânea, apaixonada pela vida e divertida. A vida corria ao seu redor e ele estava feliz de ser parte disso.

Ele se tornou um amigo, nada mais, mas era uma amizade que durou até o fim de sua vida. Ela nunca esqueceu seu tempo juntos. “Foi naqueles dias encantadores que ficamos em Roma que minha vida atingiu seu clímax”, ela escreveu à uma amiga. “Nunca serei tão feliz novamente. Não acredito que fui tão feliz antes”.

Ainda assim, ela seguiu em frente rapidamente. Ela estava mais ocupada do que nunca… novos livros, novas histórias, novos amigos, como os pintores pré-rafaelitas, Holman Hunt e Rossetti.

Elizabeth era agora uma mulher que queria tudo, trabalhando a um nível prodigioso para manter sua vida. Mas isso estava prejudicando a sua saúde. Ela tinha enxaquecas que a deixavam prostrada e desmaios que a derrubavam. Ela estava exausta. “Estou tão cansada de girar meu cérebro”, ela escreveu. A solução que concebeu era deixar a sujeira de Manchester e atrair seu marido relutante para viver com ela no Sul da Inglaterra.

Ela comprou em segredo uma casa enorme em Hampshire para os dois desfrutarem na velhice. A casa custou 2.600 libras (174.000 libras nos dias de hoje), metade da quantia paga com uma hipoteca. Suas garotas, que sabiam do segredo, foram avisadas para não contar ao pai. Ele desaprovava dívidas.

Seu último livro, Esposas e Filhas, estava aparecendo na revista Cornhill e ela estava se apressando devido aos prazos enquanto redecorava a nova casa, tentando deixar a antiga sem que William descobrisse.

Finalmente, ela se mudou e, enquanto desfazia as malas, ela deixou de lado o último episódio de Esposas e Filhas. Nunca seria publicado.

Em um domingo, em 12 de novembro de 1865, suas filhas e ela tiveram uma manhã preguiçosa antes de Elizabeth descer a vereda até a igreja. O vigário achou que ela aparentava estar extremamente bem.

Às cinco da tarde, todos se sentaram na sala de estar para o chá. Elizabeth estava conversando, lembrando de uma conversa que tivera com um juiz, quando, no meio de uma frase, ela parou, arfou, e caiu bruscamente com um ataque no coração.

As notícias teriam que ser dadas a seu marido que, não apenas sua esposa morrera, mas em uma casa que ele nunca soube ter sido comprada para eles. Ela tinha 55 anos e William, o homem que ela amou infalivelmente, foi consignado a uma viuvez por mais de 23 anos. Após tantas tragédias em sua vida, talvez aquela fosse a última.

Quanto a Cranford, que agora encanta um novo público, um século e meio depois, era o livro favorito dela entre todos os seus livros.

“É o único que posso ler novamente”, ela disse ao artista John Ruskin pouco antes de morrer. “Sempre que estou indisposta ou doente, eu o pego e rio com ele outra vez”

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Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Luciana Campelo

    Não conhecia a vida da Elizabeth Gaskell e que mulher a frente do seu tempo, uma pena que tenha morrido tão jovem. Obrigada pela maravilhosa tradução. 🙂

    • Enza Said

      Obrigada! Foi muito bom conhecê-la melhor… realmente, uma pena que tenha morrido tão cedo 🙁

  • Raquel

    Fiquei muito feliz de poder saber mais sobre a vida da Elizabeth Gaskell, excelente texto!!

  • Carolina Azevedo’

    E tem como não amar Elizabeth Gaskell?
    Sério, sou grata à essa mulher maravilhosa não só por ter criado um gentleman tão sexy como Thornton, mas como também pela mesma ser um exemplo de superação e talento.
    Parabéns pelo texto, é inspirador ver que outros brasileiros admiram as belas obras de Mrs. Gaskell. <3

    • Enza Said

      Como não admirar? Ela era muito talentosa! E pensar que enfrentou tantas adversidades… só me faz amá-la ainda mais por conseguir superá-los e deixar um legado tão rico em suas obras <3

  • Lauren Harris

    Entendo porque Cranford era seu livro favorito e provavelmente será um dos meus também. É adorável.

    • Enza Said

      É sim! Muito <3

      • Isladi Rossi

        Quem ainda não viu as séries Cranford e Return to Cranford, deveriam baixar e assistir, são lindas!!

  • Rebeca Rodrigues

    Não li Cranford, mas a série com certeza é adorável e muito engraçada!! Adorei saber mais sobre a vida de Elizabeth Gaskell. Os livros dela (e de tantos outros autores) publicados pela Pedrazul são lindos, belíssimas edições, quero muito os comprar.