A dupla dinâmica da literatura, Will e Jane, compartilhou o caminho para a fama

willjane_gif-master768-v2

William Shakespeare e Jane Austen action figures. Crédito Tony Cenicola/The New York Times

 

Há algo na cultura pop que ama um casal. Kim e Kanye. Brad e Angelina. Bill e Hillary. Batman e Robin.

Uma exibição na Biblioteca Folger Shakespeare em Washington acrescentou uma reviravolta na fórmula e está contemplando a contínua fama de outra dupla dinâmica: Will e Jane. É verdade, ela e William Shakespeare nunca se conheceram pessoalmente (fora do bizarro alcance das fanfictions, é claro). Mas suas vidas pós-morte caminharam paralelamente a iluminar o processo pelo qual alguns grandes autores foram transformados em ícones, amados tanto pelas personalidades que imaginamos que teriam e pelos nossos sentimentos de intimidade com eles quanto por qualquer dos seus escritos. Esse, pelo menos, é o argumento de “Will & Jane: Shakespeare, Austen e o Culto de Celebridade”, uma reunião atrevida de objetos estúpidos que fãs ao longo dos séculos deixaram para trás.

05WILLJANEJP4-master675

Fole com o retrato de Shakkespeare (Folger Shakespeare Library).

A apresentação, que abre no Sábado, é a primeira exibição de Folger a unir Shakespeare a outro escritor e a primeira a desenterrar alguns artefatos mais estranhos – alguém gostaria de ver um Fole antigo com o rosto de Will estampado? – em seus cofres, mais conhecidos por tesouros como as 82 primeiras páginas. A exibição é feita junto com a Austenalia, que varia de objetos pessoais emprestados do Museu da Casa de Jane Austen em Chawton, Inglaterra, até àquelas decorações cheirosinhas que conseguimos no eBay.

Shakespeareans mais velhos podem até empalidecer ao ver Will e Jane caricaturados no pôster de divulgação da exibição… para não falar na perspectiva de ver Janeites vestidos (as) com chapéus regenciais, reunindo-se nos salões de estilo Tudor de Folger apenas para suspirar sobre a camisa (molhada) vestida por Colin Firth em seu indelével papel de Mr. Darcy na adaptação feita em 1995 pela BBC de Orgulho e Preconceito.

Mas a Austen-mania global provocada por essa produção tem um paralelo marcante, argumenta a apresentação, na onda de adoração a Shakespeare que começou com o Jubileu de Shakespeare em 1769 e o colocou como um símbolo dos ingleses, além de inspirar sua quota de lembrancinhas, canecas e outras homenagens decorativas.

“Shakespeare foi um tipo ousado de fenômeno pop no século 18”, disse Janine Barchas, uma especialista em Austen da Universidade do Texas que organizou a apresentação junto com Kristina Straub, uma estudiosa de Shakespeare na Universidade Carnegie Mellon.

“Quando você percebe como a reputação dele foi formada e então cresceu”, ela continuou, “percebe que é muito semelhante ao que estamos vendo em relação à Jane Austen agora e à forma que a cultura pop cria uma base para a alta cultura”

Image1

Bandagens de Jane Austen para feridas literárias?

As formas de biscoito em forma da silhueta de Austen em uma exibição podem não ser muito velhos. Mas eles não são, a srta. Straub acrescentou, mais absurdos ou menos dignos de estarem em um museu do que uma caneca estilo século 18 com um retrato de Shakespeare estampado nela… ou o que um tanto de lenhas aleatórias trazidas de onde Shakespeare nasceu em algum lugar de Stratford-até-Avon que dizem ser os restos de uma cadeira que ele pode ter sentado.

“No final do dia, são apenas gravetos”, disse a srta. Straub. “Mas eles também estão sendo conservados em um cofre, considerados como algo de valor. Pode fazer você rir, mas também diz algo sobre o tamanho da celebridade que você precisa levar a sério”.

A exibição nasceu de uma conversa informal quatro anos atrás em um café da manhã composto de burritos. Michael Witmore, o diretor de Folger, estava em Austin no Texas para uma conferência e se encontrou com a srta. Barchas, que o provocou sobre o fato de que “minha autora realmente está ajudando o seu autor a ganhar dinheiro”, ela lembra.

Após uma conversa informal eles chegaram a um consenso. “E se esses dois fossem dois colegas simpáticos? como Will & Grace ou como Laverne & Shirley?” Whitmore se lembra. “Começou com o título. Não havia nada de muito erudito nisso”.

O resultado final, que chega durante o 400o aniversário da morte de Shakespeare e um ano antes do 200o aniversário da morte de Austen, mistura um profundo conhecimento com uma séria extravagância. Não conta uma história linear, mas reúne artefatos temáticos, cuidando para manter os dois escritores juntos.

05WILLJANEJP6-master675

Uma mecha emoldurada do cabelo de Jane Austen.

Além do puro gênio literário, os apresentadores argumentam, Shakespeare e Austen têm muito em comum – a começar com suas vidas particulares pouco conhecidas, que deixaram buracos tentadores para preenchermos.

Uma exibição segue a forma como os devotos de ambos os autores, que foram capturados em apenas alguns retratos, melhoraram suas imagens. (O retrato de Austen que aparecerá no próximo ano na nota de 10 libras britânicas é baseado em um retrato vitoriano encomendado pela família em 1869, mais de 50 anos após a morte de Austen, para melhorar um esboço informal feito por sua irmã, Cassandra).

Fãs também tenderam a melhorar suas vidas amorosas com romances embelezados ou inventados, seja com uma carta de amor forjada de Shakespeare para sua esposa, Anne Hathaway, que foi criada na década de 1790, ou em filmes como Shakespeare Apaixonado ou Amor e Inocência, que descreve Austen se apaixonando por um advogado pobre apenas para acabar indo atrás de sua vida criativa e solitária.

A apresentação também examina como os nomes de ambos autores têm sido utilizados no marketing, seja numa placa para a taverna Cabeça de Shakespeare do final do século 17/início do século 18 ou em uma caixa de sapatos vaia da década de 1970 de uma linha de sapatos femininos nomeada de Jane Austen por motivos desconhecidos.

“Aquela partiu meu coração”, srta. Straub disse sobre a caixa, no meio de vários itens emprestados da Faculdade Goucher, um grande depósito de objetos relacionados à Jane Austen. “É apenas uma caixa de sapatos”.

Um monte de gravetos que presumem ser de uma cadeira e outros objetos recolhidos do lugar em que Shakespeare nasceu.

“A camisa” como a plaquinha chama a chemise de Mr. Firth, pode parecer ser apenas uma camisa. Mas o anúncio em Março de que a Folger a tinha conseguido, levou a manchetes palpitantes ao redor do mundo. (A satírica “tour rider” publicada no The New Yorker chamou a atenção para as exigências contratuais de rock-star da camisa, incluindo: “Selfies com A CAMISA só serão concedidas a pessoas que realmente leram as obras de Jane Austen, não apenas livros sobre pessoas que gostam das obras de Austen”).

A camisa é exibida perto de uma série de homenagens como uma reencenação fotográfica com Benedict Cumberbach e, como um exemplo de um Shakespeareano paralelo, uma série de porcelanas do século 18 mostrando atores famosos como Richard III.

05WILLJANEJP2-blog427

A “camisa” que Colin Firth vestiu na série O&P tem um lugar especial na exposição.

Repetição “é um poderoso mecanismo de reforço da celebridade”, um texto de exibição explica. “O valor cultural de uma imagem aumenta mais à medida em que é copiado”.

A celebridade literária também é reforçada por outros materiais com outras formas de fama. Pense no caso do anel turquesa de Austen que se tornou uma causa célebre após a cantora americana Kelly Clarkson comprá-lo em um leilão, levando o ministro da Cultura Britânica a declará-lo um tesouro nacional que não podia ser exportado.

O Jane Austen’s House Museum, que agora possui o anel, se recusou a emprestá-lo a Folger, forçando a exibição a se contentar com uma cópia de ouro. Mas eles enviaram uma coleção de objetos domésticos descobertos sob as tábuas do chão da casa, incluindo um prego e um cachimbo de barro. Eles também enviaram uma mecha emoldurada de cabelo de Austen, exibida ao lado de uma única mecha de cabelo ruivo atribuída a Shakespeare que surgiu pela primeira vez no início do século 19.

“Nós não fizemos exame de DNA”, srta. Barchas brincou. “Não queríamos dissipar o mito”.

A apresentação não negligenciou completamente artefatos literários mais tradicionais. Há volumes de Shakespeare e Austen que pertencem a pessoas famosas como a cópia manchada de café de James Joyce de As You Like It (“Como gostas” ou “Como lhe aproveitar” em português) e a cópia de Mansfield Park dos tempos de estudante do ator Stephen Fry, completa com “estranhas anotações, circa 1977”, como a placa explica.

Uma exposição chamada “O fim?” mostra o jeito como alguns admiradores buscam total comunhão, até na morte. Os apresentadores citam uma carta da diretora do Museu da Casa de Jane Austen que implorou em 2008 aos (às) Janeites a não pedir aos seus herdeiros para espalhar suas cinzas no local.

“É perturbador para os visitantes”, ela observou, “ver montes de cinzas humanas”.

Mas a própria Folger é um mausoléu. Como a apresentação mostra, as cinzas de Henry Clay Folger e Emily Folger, os fundadores da biblioteca, estão enterrados perto da sala de leitura atrás de uma placa em homenagem “à glória de William Shakespeare e à maior glória de Deus”.

“Com este tipo de idolatria, seu primeiro instinto pode ser gargalhar”, disse Barchas. “Mas então você terá que parar e pensar seriamente sobre o que é você ama na literatura”.

admin-ajax

Matéria traduzida do http://www.nytimes.com/

 

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com