A Abadia de Northanger (Jane Austen)

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“Ninguém que tivesse conhecido no passado a menina Catherine Morland poderia ter presumido que ela nasceu para ser uma heroína”.

Catherine, durante a infância, era desprovida de beleza e adorava brincadeiras tidas na época como “de meninos”. Tinha dificuldades de aprendizagem mas não ficava de mau humor, tinha bom coração e era carinhosa.

Mas “aos quinze, sua aparência se emendava; começou a fazer cachos nos cabelos e a suspirar por bailes; sua compleição melhorou, suas feições foram suavizadas com ganho de peso e de cor, seus olhos adquiriram mais vivacidade e sua figura se tornou mais notável. Seu amor pela sujeira deu lugar a uma inclinação para o refinamento”.

Ainda aos dezessete, não tinha inspirado a nenhum jovem a nutrir paixão por ela…

O Sr. Allen e sua esposa, vizinhos dos Morland, estavam de partida de Fullerton para Bath. A Sra. Allen era muito afeiçoada a Catherine e a convidou para ir com eles passar uma temporada em Bath. Chegando lá, a Sra. Allen introduziu Catherine ao mundo da moda, dos vestidos e dos bailes já que uma senhorita como Catherine deveria ser introduzida aos “Salões Altos” o quanto antes, para talvez conhecer algum cavalheiro.

“Elas fizeram sua primeira aparição nos Salões Baixos e aqui a fortuna se mostrou mais favorável à nossa heroína. O mestre de cerimônias apresentou-lhe como par um jovem bastante cavalheiresco; seu nome era Tilney. Ele aparentava ter 24 ou 25 anos, era um tanto alto, tinha feições agradáveis e um olhar vivaz e muito inteligente; se não era bonito, estava muito perto de sê-lo”.

Tinha uma sensibilidade especial e perspicácia no seu jeito de falar. No Salão da Fonte, Catherine foi apresentada à Isabella Thorpe, filha da Sra. Thorpe, amiga da Sra. Allen. Isabella era a filha mais velha, mais bonita e era bem mais experiente do que Catherine no que diz respeito à bailes, cavalheiros e moda. Ficaram muito amigas e sempre iam juntas aos bailes.

Por dias Catherine procurou seu par nos salões em vão… O Sr. Tilney parecia ter desaparecido. Em quanto isso, John Thorpe, irmão de Isabella, tentou impressionar Catherine de uma maneira bem rude e até grotesca.

“Seus modos não agradam Catherine; mas ele era amigo de James” – irmão de Catherine. “Udolpho? Deus! Eu não, nunca leio romances, tenho coisas mais importantes para fazer… Todos os romances são tão repletos de tolices e coisas sem sentido.”

Era um jovem áspero e de pouca sensibilidade com sua mãe, irmãs mais novas e principalmente com o trato de seus cavalos. Seus modos não eram nem um pouco cavalheirescos e Catherine, com pouca experiência e habilidades com rapazes, se deixou influenciar pelas conversas de John Thorpe, o que lhe causou enormes arrependimentos. Ele parecia querer disputar a atenção de Catherine com o Sr. Tilney.

O Sr. Tilney acompanhava sua irmã em um baile, despertando o desespero e a curiosidade de Catherine – seria ela sua noiva ou esposa? O motivo de seu desaparecimento? Para sorte de nossa heroína era apenas sua irmã, causando enorme alívio em Catherine.

“Fico tão feliz por vê-lo novamente. Temia que o senhor tivesse deixado Bath. Tilney agradeceu a ela por seus temores e disse que apenas saíra da cidade por uma semana, na manhã seguinte ao baile em que tivera o prazer de conhecê-la”.

O Sr. Tilney ansiava secretamente pela oportunidade de encontrar Catherine. Convidou-a para dançar. Ela esperava esse convite com uma alegria imensa, mas sua alegria durou apenas até lembrar com profunda mortificação, que havia se comprometido em dançar nesse baile somente com John Thorpe.

“…ela extraiu de todas uma lição prática: dispor de um par previamente estabelecido, num baile, não aprimora necessariamente a dignidade ou a diversão de uma jovem dama.”

Catherine estava determinada em estreitar sua amizade com a Srta. Tilney, irmã de Henry Tilney e….

“…quando de súbito se viu chamada e convidada para dançar por ninguém menos que o Sr. Tilney. Não será difícil adivinhar que ela cedeu ao pedido com olhos cintilantes e que o acompanhou na quadrilha com uma deliciosa palpitação no peito. Ter escapado e, segundo acreditava, ter escapado de John Thorpe por tão pouco, e ser convidada pelo Sr. Tilney, como se ele a tivesse procurado propositadamente! Não lhe parecia que a vida poderia prover uma felicidade maior.”

Para Henry, companheiras de dança poderiam ser comparadas às esposas. John Thorpe não teria o direito de importuná-los aquela noite, pois Catherine dançaria somente com Henry.

John Thorpe estava determinado a conquistar Catherine e tentou persuadi-la à uma pequena viagem até o castelo de Blaize com Isabella e James. Mas Catherine tinha outros planos… iria caminhar com Henry e sua irmã naquele dia. Havia chovido bastante e John mentiu para ela dizendo que os tinha visto de saída para fora da cidade. Então, Catherine em sua total ingenuidade acreditou, e partiu com eles rumo ao castelo. Pelas ruas de Bath a certa altura ela avistou Henry e a Srta. Tilney indo buscá-la. Catherine ordenou que John parasse o cavalo para descer da carruagem, mas John fustigou-o ainda mais para que corresse mais rápido. Quando Catherine voltou do passeio tediante, soube que Henry e sua irmã foram até lá para encontrá-la logo depois de sua partida. Ela ficou mortificada…

No dia seguinte Catherine foi até a casa da Srta. Tilney para se desculpar, dizer que foi enganada por John Thorpe, mas logo na porta foi informada que a Srta. Tilney não estava em casa. Ela se sentiu humilhada pois sabia que ela estava e logo pensou que ela não a queria receber…

Se sentindo angustiada, deprimida e humilhada, avistou Henry e seu pai, Sr. Tilney em uma camarote do espetáculo que fora assistir…

“Depois de certo tempo, no entanto, Tilney afinal olhou para ela, e lhe fez uma mesura – mas que mesura! Não houve nenhum sorriso, não houve nenhum olhar mais prolongado; os olhos dele retornaram imediatamente ao alvo anterior.”

Dias depois, Catherine teria nova oportunidade de fazer uma caminhada com a Srta. Tilney e Henry, mas Isabella tentou todas as suas artimanhas e chantagens emocionais para convencer Catherine a acompanhá-la em novo passeio com James Morland e John Thorpe, já que na época não era de bom tom uma senhorita viajar sozinha com dois cavalheiros. Mas agora, nossa heroína já não era mais ingênua. Despertara para a verdade e percebeu que os irmãos Thorpe não eram boa companhia. Estava determinada a recusar o convite para poder finalmente ter um tempo com Henry e Eleanor Tilney.

James Morland, irmão de Catherine era apaixonado por Isabella Thorpe. Pediu-a em casamento e ela aceitou. Assim, John Thorpe se declarou para Catherine, mas o coração dela pertencia a Henry Tilney. Ela comentou com Isabella:

” Eu certamente não posso retribuir a afeição que ele tem por mim, e com certeza jamais pretendi encorajá-lo”.

Quando Catherine foi convidada pelo general Tilney, pai de Henry, para uma vista em sua casa ela alimentou grandes expectativas que foram frustradas ao se deparar com a apatia dos seus filhos na presença do pai. Catherine, que adorava um bom mistério, logo concluiu que havia algo de errado e decidira investigar.

As constantes investidas do irmão mais velho de Henry, o capitão Tilney, sobre sua amiga e futura cunhada, Isabella, incomodavam muito Catherine. Isabella recusava dançar com o capitão, já que seu noivo estava ausente no baile, mas no fundo no fundo, ela desejava ardentemente ter essa chance e ela não resistiu.

“Catherine revelou seu assombro para seu parceiro, em termos muito claros: – Não sei como isso pode ter acontecido”. Isabella estava determinada a não dançar.

– E Isabella nunca mudou de ideia antes?

-Oh! Porque… E o seu irmão! Se o senhor contou a ele o que eu disse (sobre o casamento), como ele se atreveu a convidá-la?

– Não posso me surpreender por causa dele. A senhorita espera que eu me surpreenda com o procedimento da sua amiga, e já estou surpreendido. Quanto ao meu irmão, por outro lado, devo admitir que sua conduta nesse caso, não é diferente do que acredito que ele seja perfeitamente capaz de fazer”.

Os dias passavam e os Allen logo voltariam para sua casa em Fullerton. Catherine comentou com Eleanor Tilney que teriam mais 15 dias… E Eleanor contou a ela que seu pai, o general Tilney, decidira que ficariam somente mais 7 noites em Bath, retornariam para Gloucestershire, onde ficava sua casa: A Abadia de Northanger.

Por um momento Catherine ficou desapontada, mas Eleanor tinha um plano ousado. O general Tilney falou a Catherine que Eleanor insistiu para que a convidasse para ir com eles passar alguns dias na Abadia de Northanger, fazendo companhia para Eleanor.

Catherine, radiante, aceitou! Mas antes deveria pedir permissão por carta, aos seus pais. Ela estava tão feliz!

“Sua paixão por edifícios só era menos intensa do que sua paixão por Henry Tilney – e castelos e abadias costumavam configurar o fascínio dos devaneios que não fossem dominados pela imagem dele.”

Catherine desconfiava que o capitão Tilney, irmão de Henry, estava apaixonado por Isabella e que ela o encorajava. Mas duvidar da honestidade dela, já que estava noiva do seu irmão James, era quase impossível. No entanto naquela noite no salão, Isabella se comportara de maneira estranha o tempo todo, sorria e dedicava olhares constantemente ao capitão.

“Henry sorriu e disse a Catherine: …me perdoe se não posso sequer tentar persuadi-lo (a partir de Bath). Eu mesmo disse a ele que a Srta. Thorpe está comprometida. Ele sabe o que está fazendo e deve responder por suas ações.”

A viagem até a Abadia de Northanger era conduzida por Henry. Para Catherine, ter dançado tantas vezes com ele e agora estar em um coche conduzido por ele não tinha felicidade maior. Ele conduzia os cavalos calmamente, sem vociferar contra os animais e sem qualquer perturbação. Tão diferente de John Thorpe… Henry Tilney possuía uma residência em Woodston, passava pouco tempo na Abadia de Northanger, a residência de seu pai, o general Tilney.

Catherine tinha uma curiosidade imensa em conhecer todos os aposentos da velha abadia, mas havia algo misterioso no ar. Seus anfitriões não a levaram para conhecer a abadia imediatamente. Havia lugares proibidos, o que aguçou ainda mais a curiosidade de Catherine, para saber que histórias haviam por trás daquelas paredes de pedra e por trás da apatia geral de Henry e sua irmã na presença do pai. Eles eram tão alegres e calorosos na ausência do general! Catherine começou sua investigação.

“Nada poderia expor com mais clareza as soturnas maquinações de uma mente na qual não morrera totalmente um senso de humanidade e que recordava, amedrontada, cenas de um passado criminoso. Miserável homem! Com grande ansiedade em seu espírito…

…Existia certamente um motivo mais forte: o general precisava fazer algo que só poderia ser feito enquanto a casa inteira dormia; e a probabilidade de que a Sra. Tilney estivesse ainda viva, aprisionada por causas desconhecidas, recebendo das impiedosas mãos de seu marido um suprimento noturno de comida intragável, foi a conclusão que necessariamente adveio.”

Catherine foi descoberta por Henry em sua investigação. Ela nunca sentira tanta vergonha, tanto ódio de si mesma quanto naquela hora. Henry esclarecera o mistério que ronda sua família e não era nada do que Catherine havia pensado. Sentiu-se a mais infeliz das criaturas por imaginar histórias tão tenebrosas sobre os Tilney. Seu coração estava em pedaços.

Henry, vendo o sofrimento de Catherine, a consolou. Catherine, agora temia não ser aceita pelo general na família Tilney, caso Henry a pedisse em casamento. Catherine era desprovida de dote pomposo – apenas 3 mil libras, e os Tilney ostentavam grande fortuna.

Henry Tilney partiu para sua residência em Woodston, e esperava sua irmã e Catherine para uma visita dentro de alguns dias. Catherine caminhava nas nuvens! Era toda felicidade.

“A carruagem foi se aproximando da porta e Henry, com seus dois companheiros de solidão, um enorme filhote terra-nova e dois ou três terriers, estava pronto para lhes oferecer a mais calorosa recepção.”

Catherine e Eleanor retornaram para a Abadia de Northanger. O general partiu em uma viagem. Elas agora contariam com a companhia de Henry. Os dias passaram-se maravilhosos, talvez, os mais felizes da vida de Catherine até aquela data, com Eleanor e Henry Tilney. Mas em uma noite, o general regressou repentinamente, ordenando furiosamente que Catherine se retirasse da abadia na manhã seguinte, sem nenhuma explicação. Eleanor ficou mortificada. Incumbida de dar a pesarosa notícia a Catherine, estava pálida e sem força até para falar, parecia que ia desfalecer. Henry havia retornado para Woodston anteriormente.

“Todas as esperanças, todas as expectativas em relação a Henry, suspensas, no mínimo, e quem poderia dizer por quanto tempo? Quem poderia prever o dia em que voltariam a encontrar-se?”

Catherine partiu derramando-se em lágrimas… Estava angustiada demais para ter medo da viagem sozinha. Desprovida de um criado para acompanhá-la e até protegê-la. Só não de dinheiro porque Eleanor, teve a intuição de que Catherine poderia não ter recursos para a viagem de volta, e por compaixão deu-lhe algum dinheiro discretamente.

Seu rosto estava banhado em lágrimas ao passar pela bifurcação que distava 5 milhas de Woodston.

“…pensou nele, tão próximo, porém tão inconsciente, mal pôde suportar sua dor. Naquele lugar Catherine passara um dos dias mais felizes de sua vida”.

Ela passou então a pensar o que teria levado o general a praticamente expulsá-la da Abadia de Northanger.

Chegou em Fullerton, seus pais a receberam. Os dias passaram-se e Catherine era pura melancolia. Até Henry Tilney aparecer na porta de sua casa. Catherine o recebeu, ruborizou-se, o apresentou a sua mãe e depois a seu pai. Eles não nutriam ressentimento contra ele e nem contra a Eleanor. Afinal de contas, quem deu ordens de que Catherine partisse da abadia sem meios foi o general Tilney.

Henry queria saber se Catherine havia chegado em segurança. Quando ele retornou à abadia, logo depois da partida de Catherine, foi recebido por seu pai que o informou que Catherine Morland não estava mais lá, ele havia determinado sua volta para Fullerton. Henry enfureceu-se ao saber a forma como Catherine foi tratada, e decidira naquele momento que iria atrás dela e a pediria em casamento. Seu pai estava furioso, já que pensou que Catherine pertencia a uma família abastada e teria um dote considerável. Assim John Thorpe o havia informado em Bath, para se gabar já que pretendia se casar com ela. Como notou que Catherine afeiçoara-se de Henry, o general não viu empecilho ao afeto de Henry por Catherine. Mas, na viagem que fez quando deixou Catherine, Henry e Eleanor na abadia, foi informado pelo próprio John Thorpe que Catherine não tinha nada, vinha de uma família necessitada e cheia de irmãos. John se vingou já que não foi correspondido por ela. Contara ao general e este partiu imediatamente para a abadia com o intuito de que ela se afastasse de seu filho.

Catherine poderia se casar com Henry Tilney desde que ele obtivesse o consentimento do seu pai, essa era a única objeção que os pais de Catherine fizeram…

Eleanor se casou no final do verão com um homem rico e importante, tornando-se viscondessa. Exigiu a seu pai que seu irmão Henry, fosse perdoado e tivesse o consentimento para se casar com Catherine.

Henry retornou a Fullerton portando o consentimento por escrito do general Tilney para se casar com Catherine.

“Começar uma vida de perfeita felicidade nas respectivas idades de 26 e 18 anos não é nada mau; e professando, além disso, minha certeza de que a injusta interferência de general, bem longe de realmente prejudicar a felicidade deles, talvez os tenha até mesmo conduzido a ela, permitindo que os dois se conhecessem melhor e que se tornasse cada vez mais forte o afeto que os unia”.

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Solange Peretti

Sou uma Química cosmética proprietária do blog Desvendando Cosméticos e alguns outros, alquimista amante de poções do amor. Nas horas vagas a literatura, a escrita e os filmes de época me fazem companhia. Contato: solangeperetti@yahoo.com.br